Pensando sobre o que traria para conversar com vocês, não foi difícil identificar uma questão que a clínica tem me convocado a trabalhar nos últimos tempos, trata-se da constatação de um transbordamento do que denominamos adolescência para além daqueles que seriam seus limites cronológicos e sócio culturais. Talvez uma extensão, uma não conclusão da operação lógica chamada adolescência e que não deixa de estar associada à cronos e aos marcadores sócio culturais e corporais. Friso este ponto: embora uma operação lógica não seja delimitada cronologicamente, a adolescência é marcada por um tempo cronológico atrelado ao corpo e ao social. E, o que chamei acima de transbordamento da adolescência é a necessidade de um tempo maior de trabalho para a conclusão desta operação, fato que parece ser frequente ultimamente. Um tempo de passagem que não está passando, que tem demorado a passar.
Aqui, evoco os interessantes trabalhos de Sandra e de Sheyla para este mesmo espaço. No que pude apreender, ambas trouxeram de forma marcante, e de diferentes maneiras, a temporalidade da e na operação adolescência e suas implicações para o trabalho analítico. Acho que minha questão conversa um pouco com a delas e retomo a fala do analisante de Sheyla: “é tempo de passar e não de aprender” e a complementação subversiva de Sheyla: “sim, é tempo de passar, mas não sem a-preender.” Estou plenamente de acordo e intrigada com a dificuldade de a-preender para passar.
E á a partir desta intriga, desta inquietação atual que a prática me produz, que pretendo traçar algumas ideias sobre a sustentação do discurso analítico e, mais especificamente, da função analista nestes casos. Acredito que as especificidades e, mesmo, as dificuldades clínicas, que costumamos associar à adolescência, pode nos servir para além de uma clínica “restrita” à adolescentes na acepção própria do termo. De certa forma, me encontro com Rassial (2000) em sua proposição dos estados-limite, onde ele argumenta que poderíamos pensar esta clínica (dos estados-limite) como uma espécie de “adolescência generalizada” e, portanto, a própria adolescência como um estado-limite. Digo, de certa forma, pois não sou muito partidária desta conceituação dos estados-limite. Primeiro porque remete à um referencial de estruturas clínicas em contraposição à leitura da estrutura do sujeito e também pelo fato de que nem sempre os casos a que me refiro se encaixam no que o autor conceitua como estados-limites. Entretanto, me agradam as ideias de estado e de limite, tanto para pensar a clínica com adolescentes estrito-senso, bem como esta clínica que denomino, de improviso, como transbordamento da adolescência.
Bem, isto posto como ponto de partida, no texto de hoje vou trançar alguns elementos de mais três tempos de trabalho. O primeiro advém da lembrança de que a primeira vez que levei um texto para Salvador foi sobre a clínica com adolescentes, no II Congresso Internacional de psicanálise: a criança e o adolescente no século XXI (organizado pelo Espaço Moebius), em 2011. Fui reler o trabalho e percebi que algumas questões que ali rascunhei se atualizam nas que formulo hoje, acho que por isso a lembrança chegou quando comecei a esboçar o tema. Assim, aquele texto, em alguma medida, participa desta nova trama.
O segundo fio para este tecido também veio em forma de lembrança. Foi um bate-papo com Sandra, na qual lhe disse que gostava muito de atender adolescentes e ela observou: “não sei, eu digo que eles têm que me convencer!”. Na ocasião, ficamos com estas duas frases, pois a conversa mudou de rumo. Mas, eu segui com este diálogo ressoando em alguns momentos, especialmente ao receber adolescentes. Porque eu gosto de atender adolescentes? Que gosto tem, para mim, essa prática? E a que Sandra se referia? Do que ou em que um analista precisa ser convencido ou se convencer para aceitar escutar um adolescente? Perguntas que ficaram como eco da conversa, um barulhinho que não tive tempo, oportunidade ou disposição para escutar melhor e, hoje, recupero para minha trama. Aproveito a oportunidade de escrever este texto para alçar estas perguntas ao verdadeiro estatuto de questões, ou seja, que rendam algum trabalho além do barulho.
O terceiro elemento que compõe a tessitura de hoje se relaciona mais diretamente com o tema de trabalho de vocês neste ano, “a prática da análise e os discursos”. Trata-se do texto que produzi para a última Jornada da ALPL, que tinha como tema “o discurso do psicanalista, hoje”. Naquela oportunidade, parti de uma fala de Lacan no seminário 17: “Eu sou um pequeno analista” (Lacan, 1992, p. 115), para trabalhar alguns elementos associados à produção de um analista e à possibilidade e dificuldades atuais de sustentar a posição de semblante de a no exercício da função analista.
Então, vamos ver como a minha intriga atual frente ao que batizo como adolescência transbordante se enoda com algumas questões do texto que inaugurou Salvador em minha vida, a conversa com Sandra e meu recente texto sobre devir pequeno analista ou sustentar o discurso do psicanalista, hoje.
Intitulei o texto que apresentei no congresso em 2011 de “É possível responder?”, me referindo às possíveis dificuldades de os jovenzinhos responderem às questões que irrompem na adolescência e construírem um saber-fazer que lhes seja conveniente e seus desdobramentos para as capacidades crítica, reflexiva e criativa. Tinha um bocado de gente no auditório e houveram algumas intervenções sobre o meu trabalho, mas a crucial foi de Aurélio. Primeiro, porque eu tinha acabado de conhecer o cara, não sabia que ele era tão bacana e, portanto, estava bem nervosa com ele na plateia me escutando. Segundo, e mais importante, porque foi na mosca. Ele disse: “quando a pergunta é feita é porque já se tem a resposta.” Bingo, ele leu em meu texto a questão que merece, verdadeiramente, nossa atenção: é possível questionar? A curiosidade tem operado para que as questões sejam formuladas e sustentadas? Realmente, me convenço cada vez mais que esta é uma das grandes dificuldades clínicas atuais e um desafio para nós: como ajudar nossos analisantes a formularem e sustentarem questões? Ponto nodal, tanto na adolescência estrito-senso, quanto em seu transbordamento. E é na adolescência que, geralmente, contamos com a possibilidade de formular uma questão fundamental e que depende dos tempos inaugurais do sujeito, onde se estabelece a relação do sujeito com o Outro, onde a falta no Outro escava os orifícios do organismo, os buracos que se tornarão zonas erógenas: qual o lugar ocupo ou quem sou nesta história? Questão estruturante e essencial ao caráter de crise que marca a adolescência e ao trabalho analítico.
Ao longo dos tempos, o caráter de crise marcou a época adolescente de nossas vidas. Queda das identificações e das idealizações da infância, separação dos pais, confronto com o real do sexo e as convocações sociais (profissão, autonomia financeira, ocupar um “lugar no mundo”) são a lenha da fogueira desta crise e motor do que chamamos operação lógica. Crise ou, como diz Rassial (2000), estado-limite provisório na estrutura que deveria encerrar-se com o fim da adolescência, mas que pode também se encaminhar para o trágico. E sabemos ser este um desfecho não raro – pela presença de graves acting outs ou de efetivas passagens ao ato – assim como por uma espécie de descaracterização da adolescência, pois ela tem sido recoberta pelo prolongamento da infância ou da latência, o que não nos distância do trágico, ainda que em outra vertente. É o que lemos em Lebrun (2010) a respeito da dificuldade de crescer e dos traços do adolescente hoje: “não mais um período de iniciação ou de provação, mas aquele de uma longa preservação do confronto com a realidade e com suas consequências, a manutenção precisamente na infância.” (p.91).
Interessante, parece um efeito dominó, a infância se estende para a adolescência que se estende para a vida adulta e isso vira uma bagunça danada! Inclusive, descaracterizando a crise em seu caráter de momento tensional. A crise não é maléfica por si, ao contrário, é produtora de trabalho e movimento, fomenta a possibilidade de formular questões, desde que não seja aplacada, adormecida pelas medicações e/ou substituída por uma condição quase que permanente, sustentada pelo menu de diagnósticos. Me parece que estes são alguns elementos que “explicam” a dificuldade de questionar hoje em dia, a saber: descaracterização da crise e sua transformação em condição rotulada e medicalizada, culminando em uma espécie de manutenção do trágico com a insistência repetitiva dos actings, das apatias, das depressões. Uma adolescência expandida e não mais como um tempo e uma operação lógica a se acompanhar, mas uma adolescência patologizada e medicalizada, a ser curada. Em uma entrevista, Rassial (2002) comenta que a adolescência sempre termina mal por se findar com a vida adulta. Achei curioso e muito interessante este comentário, a vida adulta é algo que se está evitando com este efeito dominó de não passagem de fases? Será ela considerada a derradeira e/ou verdadeira tragédia?
Tenho acompanhado, com frequência, jovens entre 20 e 30/35 anos que chegam com múltiplos diagnósticos, muita medicação, apatia, inseguranças e incertezas sobre o que querem fazer com a vida ou, como costumam dizer, carentes de um “sentido para a vida”. Bem, é fato que a vida só tem um sentido, uma direção, que á a morte e para suportar o tédio desta certeza funesta e de uma vida que não é feita de glamour e palco, vamos tapeando isso com muitas coisas e esta turma tem se apresentado com poucos recursos para este necessário exercício de tapeação. E a coisa complica, ainda mais, quando a tapeação fica reduzida, quase que exclusivamente, à química das drogas legais, à imagética de um mundo virtual e/ou aos efeitos do discurso do capitalista, onde o consumo mortífero de objetos e marcas comerciais ganham falsos ares identificatórios. Alguns parecem tentar encurtar o caminho para o destino final, vivendo como zumbis, flertando com o suicídio, dizendo estarem certos que uma hora se matam. Outros, de forma mais passiva em quadros mais depressivos e/ou de inibições, parecem estar apenas à espera desta certeza antecipada. Embora, alguns se encaixem no chamado “adulto funcional” (estudam ou já estão trabalhando, tem relativa autonomia financeira e parcerias amorosas), pequenos fracassos ou frustrações se tornam insuportáveis e fonte de severa desestabilização. Outra curiosidade fundamental é que a despeito desta “autonomia comportamental”, ainda estão muito presos às identificações, reivindicações e idealizações parentais.
Certa vez, uma analisante me disse: “você acredita que me peguei pensando que minha mãe não ia deixar eu ir na festa? Meu Deus, com 25 anos, pareço uma criança!” Esta mesma moça entrou em um episódio depressivo muito intenso frente à uma conquista nos estudos e a possibilidade de viajar sozinha para um congresso no exterior. É muito inteligente, capaz em seus estudos de mestrado, paga sua análise, mas a cada pequeno desafio se ampara no diagnóstico de bipolaridade, entra no que chama de crise com ideações suicidas e recua. Outro analisante, 30 anos, depois de idas e vindas em graduações e trabalhos diferentes, tem certa independência financeira, mas continua se dizendo perdido: “não quero levar essa vida normal, rotineira, esperada. Meus pais acham que não quero nada da vida, é o contrário, quero mais.” Em algum momento, se diz um bebê chorão ao queixar-se e reivindicar que a mãe lhe dê mais atenção: “será que ela não sente minha falta, não?” Outra jovem, 26 anos, vários diagnósticos, muita medicação, também entra em colapso total frente às demandas corriqueiras dos estudos ou trabalho. Me contatou inicialmente para que atendesse sua mãe que, segundo ela, tem crises intensas de irritabilidade e agressividade. A mãe não me procurou, ela faz novo contato e pede horário para ela. Digno de atenção esta forma de chegar, tentou colocar primeiro, literalmente, a mãe em trabalho. Como não deu, veio ela trabalhar a mãe que considera não boa e todo o desamparo que sente e que desencadeia suas chamadas crises a cada vez que é convocada por uma pequena questão na vida.
Retomo a conversa com Sandra e meus ecos a partir dela. É fato que nossas falas apontaram para a já sabida especificidade do trabalho com adolescentes. Mas, o já sabido, a ponto de ser óbvio, é sempre muito perigoso para nós analistas e apesar de estarmos aqui nos dedicando à tal especificidade clínica, confesso que esta ideia em si me traz certa inquietação. É claro que não podemos negar ou refutar as particularidades associadas à alguns grupos, certamente temos elementos que fazem conjunto e serão variáveis importantes para o trabalho singular com crianças, adolescentes, idosos, pessoas hospitalizadas, pessoas em situação de rua, etc... Isso é o óbvio. Mas, não acho nada óbvio como levar em conta essas variáveis e, ao mesmo tempo, sustentar os invariantes necessários à efetividade do discurso analítico. Considero mesmo um desafio conjugar tais variáveis com os invariantes de nosso campo. A este respeito, uma grande experiência que tive foi a clínica em hospital geral. Foram dez anos lutando para tentar equilibrar os conflitos de interesses entre as muitas variáveis e os necessários invariantes para sustentar o discurso analítico e, pontualmente, a função analista. Por vezes dava certo e por muitas outras, não.
Escrevendo isso, me ocorre que nossa prática é sempre assim, não? Por vezes dá certo e por outras, não. O que, de forma alguma, nos exime de buscar formas de escritura que nos permitam, em alguma medida, saber e transmitir o que fazemos, com o intuito de dar mais certo do que errado. São as dificuldades que mais nos impulsionam a construir um saber fazer em e de nossa prática. Assim, acredito que meu gosto em atender adolescentes (estrito-senso ou não) está associado ao particular desafio que esta clínica traz, o desafio de aí sustentar o discurso analítico, sustentar as invariantes de nosso campo, a despeito das variantes desta clínica. Então, um dos gostos que esta prática tem para mim é o gosto do desafio. E, arrisco que Sandra também fazia alusão a tal desafio em sua afirmação. Me parece que nesta clínica, via de regra e mais do que normalmente, há necessidade de um intenso trabalho para que uma demanda nos seja endereçada. Neste ponto volto a dialogar com o trabalho de Sheyla e sua hipótese de que “a direção da cura passaria, num primeiro momento, pelo endereçamento do analista não propriamente ao outro como sujeito barrado, como no discurso do analista, mas ao outro como S1, convidando-o a trabalhar na produção do saber necessário à sua passagem”. Assim, pensar os limites do trabalho analítico com adolescentes implica pensar também a nossa dificuldade em sustentar o desejo do analista frente a tais desafios e, mesmo, frente a algo que a adolescência nos convoca ou abala na estrutura de nosso campo.
A este respeito, li em algum lugar, me perdoe o autor pela falta de referência, que o adolescente que fomos, a maneira como passamos pela operação adolescência e como a revisitamos em nossa análise tem um peso importante na nossa capacidade de suportar a função analista nestes casos. Achei bacana esta formulação e talvez o meu gosto em atender esta turma também tenha relação com isso. São boas as lembranças de minha adolescência, alguns momentos de drama bem nonsense, característico da fase, mas nada muito turbulento. Era bem nerdinha, muito curiosa, lia muito, amava estudar, não tinha problemas com a solidão e também tinha uma certa popularidade e uns namoricos. Enfim, fui verificando em análise que foi uma fase muito impulsionada pela questão “que lugar ocupo nesse mundo?” e que tive bons recursos para a tapeação do tédio, em especial pela curiosidade e gosto pelo conhecimento, pelo estudo, muitos sonhos e planos para o futuro, assim fui desenroscando das identificações parentais, me apropriando da sexualidade e o resto foi se ajeitando.
Uma vez, uma de minhas filhas, no início da adolescência me perguntou:
“mãe, como é que vocês fizeram para a gente gostar de estudar?”
Uma daquelas perguntas que deixam a gente atordoada:
“nós fizemos isso?”
“ué, nós duas gostamos de estudar e meus amigos odeiam!”
“ai, filha, sei lá, acho que é porque eu e seu pai sempre gostamos e estudamos muito”.
Silvia Amigo (2007) dá uma resposta bem melhor que a minha, a autora diz que para ser vivido de forma apaixonante, o estudo deve fazer corpo com a investigação sexual, se não, torna-se mera obrigação ou obediência ou, ainda, algo indiferente, inatingível e/ou repulsivo. De posse da possibilidade de percorrer os caminhos para a investigação da sexualidade, para o saber sobre o sexual, o estudo, a busca pelo conhecimento, as capacidades criativa, reflexiva e crítica podem aí se articular e tornarem-se fonte de paixão e prazer. Então, acho que meu gosto por esta clínica tem muito a ver com um gosto por minha adolescência e por esta articulação entre saber e sexualidade que é um dos frutos desta operação adolescência, além do gosto pelo desafio. E este também é um ponto de desafio para a análise e para nós analistas, pois esta articulação (entre saber e sexualidade) está no fundamento da formulação, sustentação e endereçamento de questões em uma demanda de análise.
Sabemos que é ao final de uma análise que um analista pode começar. A possibilidade de colocarmos nosso corpo em cena e nos situarmos como analistas em função, operarmos como tal, está enlaçada ao final de análise e sua abertura, ou seja, ao processo de produção de um analista a partir do que pode operar pela abertura de um final de análise. Nesta direção, enlaço meu terceiro fio, retomando a citação do seminário 17 que usei em meu texto na última Jornada da ALPL: “Eu sou um pequeno analista” (Lacan, 1992, p. 115). A significação implícita nesta frase não é nenhuma novidade para vocês: pequeno analista em alusão ao objeto a que ocupa o lugar de agente ou semblante no discurso do analista. Mas, o que chamou minha atenção foi a maneira chistosa de transmitir tal conteúdo e fui habitada pela pergunta: o que ele procurava causar com essa frase e, obviamente, o que ela me causou?
A fala se deu em um dos momentos em que Lacan afirmou que seu ensino não participava do discurso universitário em resposta às cobranças que recebia para retomar o seminário sobre o Nome-do-Pai e explicar, de uma vez, aquele conceito. Em nosso português brasileiro, sua resposta ressoaria, mais ou menos, assim: não sou aquele que coloca o saber no lugar do agente e vai lhes dizer o que é o Nome-do-pai, sou um pequeno analista, um analista com a minúsculo. Pensei nesta versão da tradução, um analista com a minúsculo, pelo efeito de contraposição ao sentido de engrandecimento que damos quando dizemos que algo se escreve com letra maiúscula, por exemplo: “fulana é uma mulher com M maiúsculo”. Interessante, para falar de seu ensino, se reporta à clínica e ao discurso do psicanalista, marcando a inexorável articulação entre intensão e extensão.
Na transcrição em francês, há indicação de que a plateia ri quando ele pronuncia a frase e sua continuidade que é: “uma pedra rejeitada desde o início, mesmo se em minhas análises, eu me torno a pedra angular (Lacan, 1992, p.115)”. Lacan não fazia graça de graça, sabia que tocava em um ponto delicado e usou o chiste como recurso para se fazer escutar ou, melhor, para que seu público de analistas se escutasse. Se eu estivesse naquela plateia, talvez pensasse: “meu deus, se esse cara é um pequeno analista, um analista com a minúsculo, quem poderá ser grande?” Acho que isso realmente causou e espero que insista causando e favorecendo a operatividade do discurso do psicanalista (pelo semblante de a como agente) e da transmissão a partir da prática. A mensagem é clara: sejamos pequenos. Mas, como sê-lo? E, ainda, o que há de específico em sê-lo na clínica com adolescentes estrito senso ou não?
No final do seminário 11, Lacan (1988) articula o final de análise com um devir pulsional: “depois do referenciamento do sujeito em relação a a, a fantasia fundamental devém pulsão... Como um sujeito que atravessou a fantasia fundamental, pode viver a pulsão?” (p.258). Bem, se o final de análise é o começo de um analista, uma das maneiras de pensar esta vivência pulsional está atrelada ao operador do desejo do analista e à função analista. Assim, a possibilidade do pequeno analista, do analista com a minúsculo se precipita a partir do final de análise, em articulação à um devir pulsional. O que uma análise deixa em aberto se associa a uma vivência pulsional onde o desejo do analista possa operar. Fazer ali com este devir pulsional, passar em ato a experiência de sua análise através da presença capaz de suportar a transferência e seus necessários enganos, bem como a função de tela para os objetos a que convenham a cada uma das curas que conduza até o ponto que seja desnecessária e descartada como resto.
Porge (2014 e 2019) associa a vivência pulsional ao final de análise de um analista à pulsão invocante e à sublimação. Propõe que se trata para o analista, nesse para além da análise de um encaminhamento sublimatório da vivência ou do devir pulsional. Acho uma proposição muito interessante, pois além da sublimação ser definida por uma satisfação pulsional sem o recalque, vocês sabem que Lacan reconfigura este conceito, retirando-o dos equívocos de desconexão com o sexual, de grandiosidade e de reconhecimento social. Com a releitura de Lacan sobre a sublimação, trata-se apenas de um encaminhamento pulsional que pode operar alhures ao recalque a à formação sintomática e isso combina muito com analista com a minúsculo. Além do mais, o autor (Porge, 2014) associa tal devir pulsional para um analista à vivência da pulsão invocante, em especial em sua relação com o silêncio. Um silêncio fruto de final de análise como destino pulsional, silêncio que faz voz e permite que o dizer ecoe, na forma de l’une-bévue, no corpo como estrutura.
Me parece que estas formulações escrevem como sermos pequenos, analistas com a minúsculo para que o dizer ecoe e as questões se sustentem como demanda de análise e, acredito que fui indicando, ao longo do texto, as dificuldades em sê-lo na clínica com adolescentes, estrito senso ou não. Se já havia uma dificuldade ou limite na adolescência para a entrada em análise e para sustentação de um percurso em função dos recursos deste tempo lógico, se já era difícil acompanhar a crise, sem ela, fica pior. A descaracterização da crise pela patologização, pelo adormecimento medicamentoso, pelo consumo imagético e de objetos/marcas, dificulta ainda mais. Soma-se aí o enfraquecimento da curiosidade e da criticidade, ambas atreladas à articulação entre saber e sexualidade e à possibilidade de questionar e, portanto, formular e endereçar uma demanda de análise. Ser pequeno analista frente à grande adolescência não é tarefa fácil, na verdade, nunca o é, mas aí temos uns complicadores e um pouco mais de trabalho. No entanto, para mim, é sempre na radicalização de nossa função que encontramos solução, advertidos de que só sendo pequenos podemos operar e o discurso do analista se produzirá, pontualmente, entre os outros três, nos giros dos quatro elementos da estrutura do discurso. Esclareço que o que chamo de radicalização da função nada tem a ver com uma rigidez técnica ou uma estética da neutralidade, ao contrário, trata-se da pequenez que nos permite inventar a psicanálise que praticamos a cada dia, que nos permite ser poeta o suficiente (poète assez/pot assez), tendo o vazio do pote e o ato criativo como elementos para a direção da cura.
Nesta direção, retomo meu primeiro fio, o texto que levei para o Congresso de 2011 e reproduzo para vocês um curioso diálogo entre dois adolescentes, com o qual iniciei aquele trabalho:
“ – Se eu não souber responder, vou chutar em c de Cristo ou d de Deus.”
“ – E se você estiver em dúvida entre, exatamente, estas duas alternativas?
“ – Bom, aí eu vou em c de Cristo, porque d também pode ser de Diabo.”
“ – Mas, veja bem, c também pode ser de Capeta!”
“ – Ah... Então eu ponho a, de Amor!”
Nesta cena conversavam um rapaz e uma garota, ambos de quatorze anos, a respeito de um simulado que estava prestes a ocorrer. A cena se complementa com a presença de uma terceira personagem, outra mocinha da mesma idade dos dois primeiros, que acompanhava atenta e silenciosamente a conversa. Foi ela quem me narrou os fatos e ao final me disse, já nada silenciosamente, que o a de Amor, aquele Amor divino referido pelo rapaz, também poderia ser de ateu. Assim, fez referência não à Deus ou ao Diabo, não à Cristo ou ao Capeta, não ao Bem ou ao Mal, mas ao humano. Sua observação é seguida da seguinte análise: muitos colegas rezam e não estudam, vão aos templos religiosos e não respeitam as regras e as pessoas na escola. Por fim, ela conclui dizendo: “... é claro que esse negócio não funciona!”.
É verdade, as coisas não tem mesmo funcionado muito bem neste tempo de passar, onde é preciso separar-se do Outro, sair da alienação e da cristalização, escrever e reescrever a falta e assim se fazer ser. E na minha aposta de radicalização da função, reitero que o a, referido pelos personagens seja ao Amor ou ao ateísmo, é para nós a letrinha fundamental para sermos pequenos e, mais, com ela também podemos escrever abertura. Sendo assim, enfatizo que, mais do que nunca, vou de a.
E como nem tudo são trevas ou agruras em nossa prática, encerro com a frase de um jovem analisante de 18 anos que, posso dizer, me convenceu logo na chegada: “A vida tem uma dimensão trágica que nunca vai deixar de existir. O quero saber é o que fazer com isso”. Belo endereçamento de análise e lição para nos lembrar de não tomarmos a adolescência como una, como grupo, como especialidade. Além do mais, sua frase se soma à de Rassial (2002) que diz que a adolescência sempre termina mal, pois termina com a vida adulta. Tragédia anunciada, sigamos trabalhando para pôr nisso tudo um pouco de comédia.
Zeila Torezan
Referências
Lacan, Jacques (1988). Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1963-64). Rio de Janeiro: Zahar
Lacan, Jacques (1992). Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise (1969-70). Rio de Janeiro: Zahar.
Lebrun, Jean Pierre (2010). O mal-estar na subjetivação. Porto Alegre: CMC.
Porge, Érik. (2009). Transmitir a clínica psicanalítica: Freud, Lacan, hoje. Campinas: Editora da Unicamp.
Porge, Érik (2019). A sublimação, uma erótica para a psicanálise. São Paulo: Aller.
Rassial. Jean Jacques (2000) O sujeito em estado-limite. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2000.
Rassial. J. Jacques (2002) Os nós adolescentes. In: Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, n.23, p.127-137.