ANGÚSTIA E DESEJO DE FREUD A LACAN
Angústia, em alemão ”Angst”, embora possa ter outros
sentidos, é uma tradução que pode reportar-se ao medo. No viés que delineia o
conceito de Angústia em Freud (1916-1917), refere-se a um afeto com reações
corporais ou a sensações indefinidas, como um incômodo, por exemplo. O afeto
que Freud refere não tem a ver com o sentimento de emoção; por outro lado essa
sensação indefinida ou estranha se liga a um fenômeno oriundo do campo
psíquico, sendo uma excitação que se refere à energia que investe o psiquismo.
Em 1926, Freud atribuiu angústia a uma energia psíquica, uma excitação, que se
liga a uma representação para marcar um funcionamento no psiquismo do sujeito,
compondo um representante da pulsão que o sujeito recalca. Esse representante é
utilizado como um mecanismo de defesa atribuído a um caráter econômico. E o
recalque faz menção a uma representação inconciliável, por exemplo, uma alergia
ou um distúrbio respiratório. Freud (1926) ainda atribuiu a fobia como
veiculada a um segundo objeto, cuja alusão (cavalo) é enlaçada ao medo, visto
no caso do pequeno Hans, um estudo a acerca da neurose de angústia, atendido
por Freud em 1909. Freud discute, inclusive, sobre a repetição como fixações
que determinam os retornos do recalcado na cadeia pulsional como conteúdo a ser
elaborado e que sempre reaparece nos sonhos, nos chistes, atos falhos, entre
outros. Mais tarde, em 1933, Freud define que é o ego que recalca para evitar a
representação daquilo que o sujeito não consegue lidar por ser assunto ainda
intratável. E o afeto que fica fora do campo representacional e que não é
nomeado equivale a uma angústia sem representação no corpo.
Sobre o arcabouço da construção teórica desenvolvida por Freud acerca da
angústia no sujeito, assim como seus mecanismos de defesa, Lacan (1962-
1963/2005) retoma a teoria freudiana e salienta que as defesas não são
construídas para barrar a angústia, mas diz respeito à resposta a algo que ela
destina, ao que ele nomeia como signo no seminário “desejo do Outro”; é o que
ocorre com a perda do limite do sujeito e faz menção a um vazio que não tem
borda, a partir de algo que o captura e o aliena, embora tenha seu aspecto
fenomênico, uma vez que se articula com o real, mas também não é sem objeto. Em
relação ao termo ‘’objeto’’ me refiro ‘’objeto de desejo’’. Esse tal objeto não
existe, uma vez que a pulsão não tem objeto definido, mas articula-
se entre a significação fálica, a falta de objeto e o tamponamento da falta.
Pretendo desenvolver um pouco mais à frente deste texto sobre esses últimos
conceitos, no intuito de discorrer um pouco mais sobre a angústia, o conceito
em questão. Ocorre que, em 1974-1975, Lacan se distancia mais ainda de Freud e
conceitua que angústia é invasão do real no imaginário bem como um desejo
insabido, ou seja, a falta constituinte que se reporta à estrutura do sujeito
articulando o desejo ao campo do gozo, bordejando o gozo do Outro na baila dos
significantes e do enodamento borromeano na via daquilo que está no eixo da
inibição, do sintoma e da angústia.
Essas saídas do sujeito no processo de castração vão designar três modos de
exercer a função de nome-do-pai, dando a ele um nome por meio dos seguintes
processos: privação, frustração e castração. Como resultantes, a inibição e o
sintoma fazem menção à elaboração do sujeito diante da angústia de castração,
dando também ao sujeito um lugar no mundo enquanto significante, de onde se
sustenta no gozo através de uma nomeação do real realizada pelo imaginário e
pelo simbólico. Por isso, ocorre uma estabilização dos fenômenos para o sujeito
instituído, embora o sujeito faça sintoma como mecanismo de defesa.
Ainda ao que refere a angústia, Lacan em (1962-1963/2005), no primeiro capítulo
de ‘’o seminário’’, livro 10, diz que a “estrutura da angústia faz menção à
fantasia, por assim dizer, a mesma coisa, já que a angústia é invasão do real
no imaginário”. Pode ocorrer que a angústia faça sintoma, por exemplo:
xerostomia (boca seca), tremores, entre outros. Mas se o sintoma é definido
como a invasão do simbólico no real, resultando da bricolagem do significante
com o real, no caso da angústia o real presente no sintoma faz referência à
satisfação pulsional, que, de maneira indireta, implica o corpo, uma vez que o
significante organiza a forma de satisfação pulsional; logo, a falta que
aparece no campo do desejo é o que o gozo pretende eliminar, ou seja, impede o
sujeito de alcançar o objeto de satisfação. Por exemplo, é comum que o sujeito
partilhe com o analista sua vontade de eliminar o sintoma que sustenta seu gozo
no “impedimento’’, em contradição com o desejo de se manter impedido.
De acordo com Lacan seminário 10 (1962-1963/2005), “estar impedido é um sintoma
(…)”, logo o impedimento que é suscitado no sujeito se liga a uma armadilha, na
qual ele se vê embaraçado, ou melhor dizendo, capturado pela imagem especular –
falo instituído pelo Outro – assim como dividido entre aquilo que concerne à
captura
narcísica, a partir do investimento libidinal e o objeto de
desejo, ao qual o sujeito se vê impedido à medida que se aproxima do objeto em
questão em decorrência da angústia.
Voltando ao trecho do texto “tal objeto não existe, uma vez que a pulsão não
tem objeto, mas articula-se entre a significação fálica, a falta de objeto e o
tamponamento da falta” a fim de desenvolver um pouco mais, começo com a
significação fálica e sua proximidade com a angústia a partir do exemplo que se
segue para explicar de modo mais prático ao que pretendo abordar. Inicio
discorrendo sobre a resposta a uma demanda, em que o sujeito se impõe em
responder ao que se liga à sustentação fantasmagórica a partir do olhar do
Outro e o seu real desejo que ainda está na via do Outro. Por exemplo, um
sujeito que responde na posição de um significante negativo (? – falta mãe), ou
seja, não sendo para o Outro o que se espera dele. Entretanto, o sujeito
sustenta esse lugar mesmo que de modo conflitante, ao mesmo tempo em que ele
faz de tudo para manter-se em tal lugar – gozo – articulado com o desejo do
Outro. O impedimento pode aparecer quando o sujeito não consegue sustentar um
projeto a partir da escolha de um objeto de desejo como objeto de satisfação.
Pode ocorrer que o sujeito ainda não se desembaraçou e insiste em tamponar a
falta pela via do desejo do Outro, uma condição em que se faz um nó – um empuxo
como impedimento. Não há completude, mas aceitar a falta e buscar os mecanismos
necessários para lidar com a angústia por meio de uma mudança subjetiva.
Não faltam casos clínicos para exemplificar, a começar por um discurso quase
corriqueiro, principalmente em casos de adolescentes, assim como é possivel
também em adultos, com esse enunciado: “eu não consigo fazer nada direito;
gostaria muito de ter minha independência, mas sempre fracasso em qualquer
coisa que resolvo fazer; eu não aguento mais, eu odeio quando minha mãe fica me
cobrando”. Enunciação: “estou impedido de sair desse lugar de fracassado”, por
outro lado, eu sou bem sucedido ao manter o significante “fracasso”, uma vez
que o preço é alto, mas é desse lugar que me reconheço, tenho medo de saber que
nada sou; ‘’fracassado é o lugar em que me sustento como o filho que sou,
conferido por minha mãe” – desejo do Outro. Essa rachadura, a separação
recalcada entre o Outro e o sujeito e o desejo do sujeito que ainda baila no
desejo do Outro – sou ou não sou o falo? – surge como algo estranho nomeado
como angústia por ser sentido pelo sujeito como algo inominável, uma vez que é
impossivel ser para o Outro. Por outro lado, ‘’não ser’’, a partir do momento
que começa tocar no significante da falta, provoca sensação de despedaçamento,
ou seja, uma
angústia terrivel experimentanda pelo sujeito no processo de
castração ou na queda do objeto.
Ainda sobre o significante ‘’falo’’ que contorna a problemática do ‘’eu ideal’’
ou ‘’ideal de eu’’, entra em jogo nessa lógica ?+ falta a falta; ? – falta mãe,
veiculada ao desejo do Outro no ponto em que se faz um enigma. Esse ponto é
justamente aquilo faz nó sintomático que ao mesmo tempo que encobre a sisão,
revelando o que é ser um significante para outro significante, numa lógica em
que a questão do falo para o sujeito, em um processo de análise, passa pelo
predicado daquilo que é impossivel prever, pois quem sabe o insabido é o
“sujeito suposto saber”, a saber, um equivoco possivel de vir a tona por meio
da associação livre.
No seminário 20 “mais ainda”, Lacan (1972-1973 /2008) afirma que, frente ao
impossível da relação sexual o sujeito só poderá contar com o falo pela via do
imprevisto, ou seja, não se sabe o que vem do inconsciente e o que está na via
de seu desejo, por isso a resistência; o que nos leva a pensar que no nível da
incerteza do falo aborda-se o ponto chave, o ponto em que se anuncia o “objeto
a” como sujeito causa do desejo e o que “não há como saber”, levando o sujeito
lidar ou se haver com o imprevisto, um real que não se sabe, por exemplo o
COVID 19. Não dá para prever também o modo singular de apreensão do real, o que
também é gerador de angústia – o que no final de análise constitui-se como
tratamento do “objeto a” e da angústia como algo que ficou paralizado, assim
como a impossibilidade da relação sexual, ou seja, a completude, além das
implicações enodadas com a privação tida como irreversível antes do sujeito
iniciar um tratamento analítico – assim como um encontro amoroso, o que não
implica ser vivido apenas pela via do pensamento. Nesse ponto, um processo de
análise balizada pela transferência, bem como outros dispositivos para condução
do tratamento, concordo com o que nos presenteia a Zeila em seu texto quando
diz da acolhida e o cuidado que se impõe ao analista tratar um paciente em meio
a uma crise de angústia. Não se trata de responder demandas, mas conduzir com
uma delicadeza capaz de medir aquilo que o sujeito pode suportar durante o
processo analítico. Achei pertinente os exemplos trazidos de Lacan, nos quais
ele se colocou afetivamente, entre outros feitos com mestria. São medidas
necessárias para trabalhar e lidar com a contigência que também suscita do lado
do analista: “como lidar com a angústia diante do imprevisto da resistência de
um processo analítico?”
“Contingência é aquilo que se resume o que submete a relação
sexual a ser, para o ser falante, apenas o regime do encontro. Só como
contingência é para a psicanálise, o falo, reservado nos tempos antigos aos
mistérios, parou de não se inscrever. Nada mais”. (Lacan, 1977- 1978/1985 pág.
127).
Ao final de análise, enuncio que a contingência é o entendimento, a apreenção
da incerteza daquilo que não há como saber vivenciando um real, na mais pura
aceitação do que não se controla, de onde ressoa um sujeito que, ao mesmo tempo
que tem ciência de sua impotência, se fortalece sustentado em si mesmo em meio
a impossibilidade de tal controle, o que, paradoxalmente, se ampara diante da
angústia provocada pela falta, ao mesmo tempo que faz laço de confiança em algo
que não se sabe advindo do próprio sujeito.
Agradeço aos colegas esperando frutificar algumas discussões acerca do que eu
não lembrei de mencionar.
FREUD, S. (1996). Edição standard brasileira das obras
psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
______ (1926) “Inibições, sintomas e angústia”, v.XX.
______ (1914) “Sobre o narcisismo: uma introdução”. v.XIV.
______ (1923) “Organização genital infantil”. v.XIX.
LACAN, J, (1962-1963/2005) O Seminário livro 10, A Angústia. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar.
______ (1953-1954/1996) O Seminário livro 1, Os escritos técnicos de Freud. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar.
______ (1977-1978/1985) O Seminário livro 2, O Eu na teoria de Freud e na
Técnica da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
______ (1972-1973/2008) O Seminário livro 20, Mais, ainda. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar.
LIMA, Mônica Assunção Costa. O sujeito da experiência psicanalítica entre o
contingente e o necessário. Ágora (Rio J.), Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p.
295-310, dez. 2002.
Apontamentos a partir do texto: “A angústia e desejo de
Freud a Lacan”
Zeila Torezan
Se a vida fosse a mesma de antes, estaríamos reunidos no
auditório de costume, teríamos ouvido a apresentação da Fátima (e não lido seu
texto) e a minha intervenção seria feita a partir da fala dela, na função de
debatedora. Mesmo a vida não sendo mais a mesma, me propus a ler e tentar
trabalhar em parceria com ela de alguma forma, sempre com o desejo de seguirmos
com o trabalho da ALPL. Como por esta via dos textos escritos, que escolhemos
por ora, fica inviável um verdadeiro debate, logo não exerço aqui a função de
debatedora, opto por escrever a respeito de alguns pontos abordados ou
indicados no trabalho da Fátima. Agradeço à ela pelo texto e enfatizo a minha
escolha: não vou comentar diretamento o texto (pelo fato de que não podemos
dialogar por aqui), mas produzir algo a partir do que o trabalho dela me
suscitou. Em função da proposta da Fátima de abordar a angústia e o desejo num
percurso histórico, vou desenvolver meus apontamentos, procurando acompanhar e,
se possível, ampliar um pouco o que o texto dela nos traz em duas vias que se
entrelaçam: a relevância e particularidade clínica da angústia nos dias de hoje
e a delimitação do conceito de angústia na teoria freudiana, bem como a leitura
de Lacan e suas formulações sobre tal conceito.
Paradoxalmente, vivemos um tempo difícil e promissor para a psicanálise.
Sabemos que esta dicotomia não é nova, desde o seu início a clínica
psicanalítica sabe ser eficaz no tratamento do sofrimento humano, mas enfrenta
uma série de dificuldades, impasses e questionamentos. Entretanto, os percalços
advindos de uma posição subjetiva onde a busca por um saber inconsciente é
sobrepujada por uma demanda de gozo que a cultura propõe como necessário
(Besset, 2002), produz impasses bem específicos e, arrisco dizer, maiores do
que aqueles presentes desde o nascimento da Psicanálise e atrelados a uma ordem
social regida pela presença de uma forte instância terceira, da repressão, do
sofrimento e da culpabilidade neurótica. Um cenário árido e favorecedor, dentre
outras coisas, da presença da angústia e das diferentes formas de atuações nas
clínicas das toxicomanias, dos transtornos alimentares, da psicossomática, do
pânico, das fobias e das melancolizações. Mas também, promissor, por, mais uma
vez, a psicanálise trabalhar para buscar formas de lidar com a dor e o
sofrimento humanos, e mostrar-se capaz de renovação teórica e técnica.
Não podemos esquecer também de toda a carga de anestesia psíquica e anulação
subjetiva que a indústria farmacêutica pode, alegremente, nos proporcionar e
ainda a presença da solidão e do enfraquecimento dos laços sociais,
pretensamente substituídos pela comunicação virtual. Bem, mais do que nunca,
com a pandemia e o isolamento dos corpos essas questões se intensificam. Chego
a pensar se este mundo virtual em que agora fomos todos, em alguma medida,
forçosamente mergulhados não tem potencial para se equiparar ou mesmo
subrepujar as drogas farmacêuticas. Sem negar as inúmeras vantagens que essa
via nos proporciona, ainda mais nos dias de hoje, não podemos fechar os olhos
para os males que também comporta. E tais malefícios se aproximam daqueles das
medicações: anestesia, entorpecimento, sedação intelectual, alegria virtual (e
não química) de um mundo e de relações imaginários. Sim, recortes imaginários
são necessários, hoje nos ajudam a quebrar o isolamento também, mas nos
mantermos conectados não é estarmos próximos. Não podemos tomar uma coisa pela
outra. Vocês poderiam dizer que estar geograficamente perto também não é,
necessariamente, sinônimo de proximidade. Correto, mas não há nesse último caso
a força, a amplitude, o poder e mesmo a sedução imaginários que o virtual
comporta.
Avançar na discussão a respeito da clínica da angústia na contemporaneidade
exige, como nos propôs a Fátima, a delimitação do conceito de angústia na
teoria freudiana, bem como a leitura de Lacan e suas formulações sobre tal
conceito. Faço, então, alguns comentários a esse respeito, reforçando alguns
pontos já tratados no texto da colega e ampliando alguns outros.
A obra freudiana apresenta duas teses sobre a angústia: na primeira, o recalque
é postulado como produtor de angústia; na segunda, a angústia é anterior ao
recalque e produz o mesmo. A construção da primeira teoria sobre a angústia
está associada à diferenciação entre as
neuroses atuais e as psiconeuroses. As neuroses atuais, em especial a neurose
de angústia, se caracterizam por um quantum de excitação sexual sem mediação
simbólica e vivenciada diretamente no corpo sob a forma de angústia e,
portanto, fora do recalque. Dito de outra forma, a angústia nas neuroses atuais
é vista por Freud como uma energia livre decorrente da tensão física e sua
ausência de intermediação psíquica. Com essa leitura sobre as psiconeuroses,
temos a libidinização da tensão sexual, extrapolando a condição física desta
tensão para o psiquismo. Freud considera os sintomas como indicadores de um
excesso de libido e coloca a ideia de transformação deste excesso também em
angústia. Tal excesso é vivenciado pelo eu como um perigo pulsional e estaria
na base das psiconeuroses, pois frente a tal perigo o recalque atua como
defesa. Com o recalque ocorre a separação entre ideia (representante
representação) e afeto, sendo a angústia um dos possíveis destinos para o afeto
(na condição de afeto livre). Portanto, temos a primeira tese sobre a angústia,
marcada por um caráter econômico em que a angústia é um resultado, uma
manifestação subjetiva de uma quantidade de energia não dominada, um produto do
recalque e já está associada a um caráter defensivo. Este caráter defensivo é,
nesse momento, enfatizado por Freud através da articulação da angústia a uma
espécie de disposição preparatória para o perigo, pois à medida que o eu retira
a libido dos representantes psíquicos, ele produz um nível de angústia
suportável afim de que o eu não seja dominado pela angústia paralisante.
Com os elementos da segunda tópica e, em especial da segunda teoria pulsional,
Freud (1996/1926) agrega à compreensão da angústia como libido transformada
pelo efeito do recalque a ideia de uma angústia originária, associada ao trauma
do nascimento, à imaturidade e dependência do humano, e, portanto, anterior ao
recalque. Assim temos a segunda tese freudiana sobre a angústia, de caráter
dinâmico, onde o recalque não causa a angústia pois ela está presente desde o
início e por temê-la o eu recalca o que se apresenta como ameaçador por, de
alguma forma, remeter à angústia originária (Giles, 2007). Freud avalia que a
imaturidade e dependência absolutas do bebê propiciam uma vivência de desamparo
e de perigo de aniquilamento que é traumática por não ser representada
psiquicamente, sendo, portanto, angustiante. Toda vez que algo remeter a isto
que é da ordem do trauma o eu se prepara para uma vivência angustiante. Assim,
a angústia como sinal põe em evidência a angústia como defesa do eu, reação a
um perigo inespecífico para impedir que um pânico desordenado se apodere do
sujeito (Kaufmann, 1996).
Para Lacan, a angústia resguarda as condições de afeto e de sinal, não de um
perigo interno ou externo, mas sim de uma vacilação frente ao desejo do Outro
(Chemama, 1995). Lacan (2005/1962-63) prioriza, em Freud, O Estranho (Freud,
1996/1919) por considerar que neste artigo Freud apresenta a angústia não
apenas como resultante da perda, da falta, mas também como manifestação frente
à falta da falta. A angústia vem com a estranheza advinda do não comparecimento
da falta ali onde ela era esperada. Assim, a angústia não é mais atribuída à
falta, à perda do objeto, ao contrário, se presentifica no momento em que o objeto
falha em se manifestar como faltante, ou seja, na possibilidade da falta vir a
faltar. Nesta direção, Lacan (2005/1962-63) afirma ser a angustia não sem
objeto e, ainda, ser um afeto que não engana. É necessário especificar que o
objeto em questão, objeto a, é aquele definido como causa do desejo, aquele que
precisa faltar para que o sujeito possa desejar. Produzido como resto no
circuito pulsional, o objeto a é o que escapa à libidinização e à simbolização.
A angústia é produzida se esse objeto não faltar e alguma coisa se
presentificar em seu lugar, anulando a possibilidade do desejo. Assim a
angústia não é sinal da falta, mas sim do fracasso desta última que é para o
sujeito condição indispensável para sua existência desejante (Chemama, 1995).
Desta forma, o que está em questão na angústia não é a dúvida, mas sim a
certeza, por isso ser o afeto que não engana, de uma posição perante o desejo
do Outro em que se corra o risco de devoração, onde o gozo do Outro se
sobreponha ao desejo. O objeto em questão no desejo e na angústia é o mesmo, a
diferença está em sua posição nestes dois casos. No desejo, o objeto está na
condição de perdido, garantindo e garantido pela falta; já na angústia, ele
reaparece e se duplica como representação e oferenda ao Outro mítico de gozo
(Goldberg, 2007). Nesta direção, sabemos que o desejo se sustenta na estrutura
do fantasma e Lacan (2005/1962-63) afirma que nesta mesma estrutura se
estabelece a angústia. Assim, perante o enigma do desejo do Outro, que na
verdade nada quer de mim, a angústia surge se o Outro não se apresentar e
permanecer como faltante para que eu possa ser a, causa do desejo, para ele.
Com estes fundamentos teóricos, não nos parece difícil
interpretar as manifestações clínicas tão comuns em nossos dias pela via das
patologias do ato (toxicomanias, pânico, bulimia e anorexia, melancolizações…),
recursos frente à angústia e à inibição, como efeito da presença de um Outro
pouco faltante ou marcado mais pela falta imaginária do que pela falta
simbólica. Posicionamento bastante condizente com o discurso social reinante de
um imperativo necessário de ascensão a um gozo sem limites. Dessa maneira, nos
deparamos com sujeitos tão apáticos, pouco desejantes, e também muito
suscetíveis à melancolização e à angústia por uma falha, vacilação, naquilo que
diz respeito a estrutura da falta e à possibilidade de ser a, causa do desejo
para o Outro e não objeto de desejo do Outro. No que concerne à condução
clínica, Lacan afirma a angústia como necessária, fiando-se nos ensinamentos
freudianos da angústia como sinal de alarme que possibilite ao eu o acionamento
de defesas que impeçam o transbordamento da angústia de forma paralisante.
Assim, ela também pode servir como sinal na análise dos limites entre desejo e
o gozo, como indicador do quanto a estrutura do fantasma garante, para esse
sujeito, o seu lugar no desejo. Em certa medida, parece-nos que a angústia
neste nível de sinal tem fracassado em nossos dias, assim como o sintoma já não
se apresenta mais tão clara e frequentemente: em geral se apresentam sob o
signo da apatia alienante ou da angústia paralisante. Neste contexto,
certamente devemos nos haver com especificidades na condução clínica que
implicam, de começo, dificuldades e maior tempo no estabelecimento
transferencial e na fundação da demanda de análise. Manobras que viabilizem a
saída da angústia paralisante e/ou da inibição não pela via do ato, mas da
palavra, certamente necessitam que o desejo do analista possa se sustentar de
forma eficaz, inclusive naquilo que diz respeito à prática da vacilação
calculada. Parece interessante que para lidarmos com aquilo que é exatamente da
ordem de uma vacilação na estrutura, recorramos a um outro campo também de
vacilação, e que tenhamos constatado que esta última pode comportar atos de
criação e subjetivação e não de fracasso e destituição, na renovação necessária
da psicanálise e sua clínica.
Referências
BESSET, V. L. A clínica da Angústia. São Paulo: Editora Escuta, 2002. 216p.
CHEMAMA, R. (org.) Dicionário de Psicanálise. Porto Alegre: Larousse-Artes
Médicas Sul, 1995. 241p.
FREUD, S. O Estranho [1917]. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud.
Vol XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. Inibições, sintomas e ansiedade [1926]. In: Obras psicológicas
completas de Sigmund Freud. Vol XX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
GILES, C. Sobre o conceito de angústia em Freud. In: Revista da Associação
Psicanalítica de Porto Alegre, vol. 1, n. 1. Porto Alegre: APPOA, 1990,
p.11-21.
GOLDBERG, S. A angústia em Lacan, uma terceira teoria? In: Revista da
Associação Psicanalítica de Porto Alegre, vol. 1, n. 1. Porto Alegre: APPOA,
1990, p.11-21. p.58-66.
KAUFMANN, P. Dicionário enciclopédico de psicanálise: o legado de Freud e
Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. 784p.
LACAN, J. O Seminário, livro 10: a angústia [1962-63]. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Editor, 1985. 366p.