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Pausas, ajustes e entusiasmo

por Zeila Torezan

O título deste trabalho é a minha resposta, ao menos neste momento, para a pergunta tema deste ano de trabalho na ALPL: por que uma escola de psicanálise? Vamos ver se consigo fazer passar para vocês como cheguei nesta síntese com a colaboração de alguns muitos outros.

Começo retomando uma historinha que até já rendeu outros textos. Era 2013, ALPL não tinha um ano de existência e fui à Reunião Lacanoamericana em Buenos Aires. Fazia uns cinco anos que começara uma nova fase em meu percurso como analista, com mudanças em algumas concepções a partir da prática clínica vivida ainda com mais intensidade e dedicação e com o movimento para a fundação da ALPL em 2012. Especialmente ocupada da temática institucional, naquela Lacano, maratonei os trabalhos sobre o ensino, a transmissão e as instituições. Portanto, havia selecionado a apresentação de Carlos Ruiz sobre a transmissão e também porque conhecia seu nome como um grande mestre, figura pioneira da psicanálise na Argentina. Mas, não conhecia sua fisionomia, apenas o nome.

Perambulando sozinha por um dos intervalos, enxerguei um senhor muito idoso, tão solitário quanto eu, bastante debilitado, pálido, magérrimo, sentado em um canto e cabisbaixo. Estarrecida e intrigada, paralisei e não conseguia tirar os olhos dele. O que fazia ali aquele velhinho visivelmente muito adoentado, cansado e com ar triste? Como tinha energia para uma Lacano? Deveria me aproximar, perguntar se ele precisava de ajuda ou, ao menos, ficar ao seu lado e juntar a minha solidão à dele? Despertei do transe com alguém da multidão esbarrando em mim e pedindo “perdon” e fui para a próxima sala de conferências para ouvir Carlos Ruiz que, para minha surpresa, era o velhinho do saguão.

A voz era fraca, mas a fala foi forte. Breve, pontual e com uma clareza e simplicidade invejáveis. Matemático de formação inicial e mestre de topologia para mais de uma geração de psicanalistas, não precisou recorrer a nenhuma referência direta à ela para que a mesma operasse em sua fala. Poucas palavras a partir de uma posição segura de quem sabe do impossível de falar tudo e com um peso de transmissão difícil de mensurar. O título da apresentação foi: “Forçado a reinventar a psicanálise” (2015) e vou reproduzir aqui um de seus poucos, curtos e densos parágrafos:



Havia pensado intitular esse trabalho “Fim da transmissão”, jogando com a frase com que se encerravam à meia-noite as transmissões de rádio, para haver tempo de realizar os ajustes necessários para a transmissão do dia seguinte. Mudei o título, mas o tema da pausa para realizar os ajustes segue presente. (p.18)



Foi sua última intervenção, morreu menos de um ano depois. Considero a experiência mais forte e uma das mais importantes que vivi até aqui, em meus trinta e cinco anos com a psicanálise. Chorei na platéia escutando sua fala e choro sempre que lembro deste dia. Não é de tristeza, embora a velhice, a doença e a morte sejam mesmo tristes e ele exalava toda esta tristeza. Por outro lado, testemunhava, de forma sublime, o entusiasmo que deve habitar um analista em seu trabalho de ser ao menos dois. A força, o impacto que senti e sigo sentindo em meu corpo é deste entusiasmo, é esta a emoção que me faz chorar quando lembro deste dia. Mudou o título, suponho, pois mesmo sabendo que seria sua última transmissão, é necessário e forçoso reinventar até o fim, apostando, inclusive, que os ecos perdurem além do fim. Sou, e serei até o fim, uma anônima testemunha dos ecos desta transmissão.

Ruiz se referia, em especial, a uma também breve fala de Lacan (2015) proferida no encerramento de um congresso da EFP em 78 (portanto, também mais para o final de seu ensino):



Eu, devo dizer, me indaguei sobre isso, e é por isso que fiz minha Proposição, aquela que instaura o que chamamos o passe, em que confiei à alguma coisa que se chamaria transmissão, se havia uma transmissão da psicanálise. Tal como agora chego a pensar, a psicanálise é intransmissível. É bem chato. É bem chato que cada psicanalista seja forçado – pois é preciso que ele seja forçado – a reinventar a psicanálise.



É custoso que sejamos forçados a reinventar a psicanálise e somos forçados a reinventá-la porque ela é intransmissível. Não é uma tarefa fácil, simples ou agradável. É necessária e deve comportar, é fundamental que comporte, disse Ruiz, pausas para os ajustes também necessários. Como podemos entender isso? O que são estas pausas e ajustes metaforizados por Ruiz pelas antigas transmissões de rádio?

Não acho que foi ao acaso, e muito menos por ser velhinho, que em 2013 (com a presença mais do que estabelecida da internet e sempre prometendo ampliar seu domínio) Ruiz elegeu fazer alusão ao rádio (onde temos apenas a transmissão sonora) em uma época onde o limite temporal diário era estabelecido pondo fim à transmissão. O rádio de outrora, com um tempo de funcionamento bem diferente do que estamos hoje habituados, pareceu, ao mestre, mais apropriado para falar da transmissão no campo psicanalítico. Além disso, me parece pertinente ler em sua escolha o fato de que o meio da transmissão também conta, do contrário ele poderia ter usado como exemplo a televisão no tempo em que a transmissão também se encerrava à meia noite e ficávamos apenas com a tela listrada. Ele escolheu um meio exclusivamente sonoro, sem contemplar a imagem, e marcado por um tempo de pausa para contemplar os ajustes. A esse respeito, de que o meio conta e com isso não vale a máxima “os fins justificam os meios”, cito Porge (2009) sobre a transmissão via escrita:



Na transmissão da clínica psicanalítica, é preciso contar com o que se transmite – o fato clínico ou assim suposto – e com o meio de transmiti-lo.O meio de transmitir faz parte do que é transmitido, e às vezes é difícil distinguir um do outro; ele atua sobre o leitor, chegando mesmo ao caso em que o meio de transmissão, o suporte da mensagem é a própria mensagem. (p.14)


 


Como se transmite, o meio, conta naquilo que podemos fazer passar de nossa experiência, do chamado fato clínico. Faz diferença se falamos, escrevemos, trabalhamos presencialmente ou virtualmente. Faz diferença como os dispositivos de trabalho funcionam, faz diferença que estes dispositivos comportem pausas para os ajustes necessários, como ocorre entre as sessões. A interrupção, o corte de uma sessão tem por fundamento a produção de uma pausa que gere abertura para os ajustes necessários, tanto na condução da cura, quanto no trabalho do analisante. Não seria similar na transmissão, não é a isso que Ruiz se referia? Cartéis, seminários, grupos de trabalho, reuniões clínicas, jornadas e o que mais inventarmos, não devem seguir esta regra para que operem bem? Pausas que promovam abertura aos ajustes necessários, pausas através das quais se produzam ajustes como modificações no dispositivo, mudanças na coordenação e condução do dispositivo ou o encerramento do mesmo para que outro se inicie. Bem, penso assim e entendo que a estrutura proposta por Lacan para o funcionamento de uma escola, uma estrutura de discurso e não de agrupamento, nos ajuda a produzir as referidas pausas e ajustes necessários. O próprio ato de Lacan de propor e fundar uma Escola pode ser lido como uma pausa no já instituido com a produção de novos ajustes. Bem como seu ato de dissolução, no momento em que considera seu passe um fracasso.

Nesta direção, na citação acima, Porge (2009) diz que, por vezes, o suporte da mensagem é a própria mensagem. Ruiz proferiu uma fala breve, pontual, pausada e muito convocatória aos ajustes. Seu texto e sua fala endereçados, em uma Lacano, à uma pequena multidão de analistas foram suporte e, ao mesmo tempo, se tornaram a própria mensagem sobre o intransmissível da psicanálise e sua necessária reinvenção para que algo possa passar em ato. Isso que chega e nos afeta, como lhes contei que aconteceu comigo ouvindo Ruiz, é como defino transmissão. Uma afetação que convoca ao trabalho, de várias maneiras, inclusive fazendo escola que também me parece uma estrutura que pode fazer suporte e ser a propria mensagem, ao mesmo tempo. Faz suporte da mensagem por ser, por excelência, um espaço de transmissão através dos dispositivos que legalizam sua posição e dão consistência ao lugar, ao espaço da transmissão. É a própria mensagem, pois sua estrutura foi proposta por Lacan como uma resposta ao que ele entendia que mancava nas outras modalidades institucionais. A própria escola, a ideia, a estrutura da escola é uma mensagem sobre o impossível de transmitir e a necessidade de reinvenção constante da psicanálise por cada analista e entre outros.

Nas palavras de Porge (2009): “o intransmissível está no coração do desejo de transmitir, não como inefável perdido nas areias do deserto, mas como soleira para a invenção” (p.15). É o intransmissível que opera na transmissão como motor para a invenção e sobrevivência da psicanálise e esta sobrevivência fica comprometida, acredito, se o “autoriza-se por si mesmo” recalcar o “alguns outros” e favorecer, de forma narcísica, um “eu forte” do analista que se baste por si mesmo. Neste sentido e acompanhando Robert Lévy (2004), temos uma ótima resposta do porquê uma escola de psicanálise:



É nisso que podemos sustentar que a instituição mínima é a análise, com uma única condição, entretanto, de que a atualização que a legitima como tal e que assim a situa numa certa ética seja transmissível e não se baste com ser inefável. O que exige: que cada um, um por um, possa fazer passar esse processo a outros, dele testemunhando; que uma estrutura de funcionamento com regras do jogo conhecidas por cada um possa ser estabelecida. (p.119)



Antes de Ruiz nos fazer o alerta, o chamado para não esquecermos a importância das pausas e ajustes em meio a toda a maluquice, a velocidade e os embustes do mundo digital, que vai na contramão da possibilidade de qualquer (re)invenção, Lacan (2002) foi visionário a este respeito em 74:



Convencionou-se chamar de sucesso o bruaá, isto é, o que faz multidão. Convencionou-se isso no público. Mas para nós, analistas, este sucesso não tem nada a ver com o que nos interessa; e este sucesso é algo bem diferente do que seria o nosso, quero dizer, aquele ao qual nós nos referimos quando falamos daquilo que somos feitos para registrar, ou seja, o fracasso. O sucesso, para nós, limita-se ao que eu chamarei de resultado. Devo dizer que sobre isso, sobre resultados, aqueles que contam, eu registrei alguns, até bem recentemente. Aconteceu de me enviarem um magnífico trabalho sobre a escritura e a psicanálise. É de um autor que mora no sul da França. E, por causa disso, ele só consegue ecos do que eu ensino. Não pode estar presente todo o tempo quando falo. Então, há de certo modo uma coisinha que não tem nada a ver, o que me garante, pois, que o resto é bem de sua autoria.  (Abertura do Congresso da Escola Freudiana de Paris, 1974. Cadernos Lacan, volume 2, APPOA, 2002)



Nosso sucesso tem relação com o fracasso inerente à transmissão em função do impossível de transmitir e não com o bruaá, hoje característico das redes. Para a articulação que me interessa aqui, sublinho o destaque que Lacan dá ao fato do autor morar distante e, portanto, fazer pausas no acompanhamento do ensino do mestre. A distância e o alcance apenas dos ecos de seu ensino foram favorecedores do sucesso, do resultado e, portanto, da transmissão. O sucesso da transmissão não estava na multidão, nas ondas de burburinho em torno de seu nome ou, muito menos, na reprodução de suas formulações. O sucesso estava no resultado de uma reinvenção, um bom texto que fora facilitado, na aposta de Lacan, pelas pausas para os ajustes necessários.

Até aqui, um pouco sobre as pausas e ajustes, agora vamos mais diretamente ao entusiasmo, embora ele já esteja aqui em ato, sendo o grande responsável por este texto e, sobretudo, na referência que fiz à fala de Ruiz. Tomo outro pequeno trecho de Lacan (2003), na Nota italiana, de 73:



A partir daí, ele sabe ser rebotalho. Isso é o que o analista deve ao menos tê-lo feito sentir. Se ele não é levado ao entusiasmo, é bem possível que tenha havido análise, mas analista, nenhuma chance. (p.313)



Nenhuma chance de ter havido analista sem que se seja levado ao entusiasmo. A que entusiasmo se refere Lacan? Pode ter havido análise pelo fato de se saber rebotalho, mas falta o entusiamo como testemunha, como prova de ter havido analista. Ter havido analista, pois esta é uma função efêmera, ter havido analista em um ato que marque a passagem de analisante a analista. Me parece que o entusiasmo é testemunhado, justamente, quando há a estranha escolha de operar esta função analista após o horror de se saber rebotalho da humanidade. E, aí entra a escola como suporte também desta estranha escolha, como auxílio para a sustentação do entusiasmo.

Sabemos que os analistas de uma escola são contados um a um, não são elementos a serem somados na composição de um todo, de um conjunto. Sustentam uma ética comum, se orientam pelos princípios que regulam o campo psicanalítico e sua escola, mas a práxis é única. Ressalto que não se trata da singularidade ou individualidade dos membros. O um diz respeito à práxis analítica que é (re)inventada por cada um, ainda que rigorosamente fundamentada nos parâmetros de uma ética e de uma lógica da qual os colegas de escola compartilham. Essa premissa, como já assinalei de alguma forma, já é por si produtora de descentramento, de abalo, de inovação, de corte no que faz lei para os grupos em geral e também para outras propostas de instituições psicanalíticas. Portanto, produz pausas para os ajustes, mas como colabora para o entusiasmo?

Acredito que os dispositivos de uma escola são os suportes para o entusiasmo, afinal eles são espaços destinados ao trabalho de passar em ato a experiência clínica de cada um, teorizando, escriturando uma prática, enlaçando intensão e extensão. Dar provas, dar mostras deste trabalho é sustentar o entusiasmo à medida em que vamos sendo forçados a reinventar a psicanálise. Neste sentido, ampliando a ideia do dispositivo do passe, passamos o tempo passando. Assim como na clínica, não é possível ocupar uma posição exterior à escola, meramente interrogativa, explanativa ou passiva. Como um e entre outros, participamos da estrutura da escola e fazemos ao menos dois do um. Entusiasmo em cena no ato de transmissão.

Um a um, com o trabalho de transmissão produzimos corte, fratura e abalo na tendência ao agrupamento e na tentação das certezas e suas falsas garantias. Isso, certamente, renova o entusiasmo!  E, um a um entre outros, em posição de espera, en souffrance, cumprimos função de tela[1] como suporte para as conjecturas, as dúvidas, as construções, as desconstruções, os erros, as angústias... Enfim, suporte para o processo sempre árduo e prazeroso (desde que haja entusiasmo) que caracteriza o trabalho com psicanálise, seja na experiência do inconsciente ou na experiência de transmissão. Como já observei, os dispositivos de funcionamento de uma escola são operadores que legalizam sua prática de transmissão e também subvertem as representações e o imaginário de um conjunto fechado e protetor, um conjunto de dogmas a serem seguidos, de um conhecimento acabado e de um status quo a serem alcançados e/ou recebidos de um amo.

Para finalizar, sem nunca terminar, uma pequena e fundamental observação sobre o termo estrutura, com o qual tomo alguma liberdade quando falo de estrutura da escola. Clara Cruglak (2021), a partir da resenha de um colóquio coordenado por Roger Bastide[2] e intitulado “Sentidos e usos do termo estrutura”, indica que o termo vem das artes, em especial da arquitetura e que a palavra deriva de struere: construir. A autora sublinha a origem da palavra associada à um verbo, o que indica uma ação e não um estado e segue com a seguinte citação do matemático Guilbaud, também presente no referido colóquio:



 

Em matemática, a palavra estrutura não é o contrário de algo, é um andaime, sempre algo oculto, interno, uma gênisis, um princípio, um esquema, um padrão, pois a melhor maneira de compreender uma construção é fazê-la (frente a objetos matemáticos, para compreendê-los, temos que construí-los). (Bastide apud Cruglak, 2021, p.29, livre tradução)



 

A melhor maneira de compreender uma construção é fazê-la, diz o matemático. A melhor maneira de compreender o conceito de estrutura em psicanálise é não o substantivar (através dos diagnósticos, por exemplo) e sim lê-lo como efeito da ação de construir o quadro clínico em transferência, da qual o analista participa. Acrescento, que não apenas a melhor, mas a única maneira de conceber uma escola de psicanálise é fazê-la. Struere, construir uma escola, não há outra forma e não há como um analista não participar desta ação quando, a partir de sua experiência com o inconsciente, leva a sério, com entusiasmo e às últimas consequências, a proposição de que um analista é ao menos dois. A partir daí, pausas, ajustes e entusiasmo seguem, sempre, sendo renovados e necessários.





Referências

Cruglak, Clara. (2021) Lo Real a la Huella: em la experiencia psicoanalitica. Ciudade Autonoma de Buenos Aires: Escuela Freudiana de Buenos Aires.

Lacan, J. (2002) Abertura do VII Congresso da Escola Freudiana de Paris, 1974. In: Cadernos Lacan, v.2. Porto Alegre: Publicação da Associação Psicanalítica de Porto Alegre.

Lacan, J. (2003) Nota Italiana. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lacan, J. (2015) A transmissão – Encerramento do IX Congresso da Escola Freudiana de Paris, julho de 1978. Porto Alegre: Correio da APPOA. Disponível em: http://www.appoa.com.br/correio/edicao/246/a_transmissao_encerramento_do_9_congr

esso_da_escola_freudiana_de_paris/222

Lévy, Robert. (2004) O desejo contrariado: ensaio sobre a impossível transmissão em psicanálise. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

Porge, E. (2009) Transmitir a clínica psicanalítica: Freud, Lacan, Hoje. Campinas: Editora da Unicamp.

Ruiz, C. (2015) Forzado a reinventar el psicoanálisis. In: Cuaernos Sigmund Freud 29:

reinventar el psicoanalisis: transmisión y discurso. Buenos Aires: Escuela Freudiana de

Buenos Aires.

 




Pequenas notas suscitadas pelo debate a partir da apresentação em 27/07/26

Registro meu sincero agradecimento à leitura e comentários da colega Maria de Fátima Oliveira, na função de debatedora de nosso Fórum. Também agradeço aos participantes deste dia, pela escuta atenta e agradável diálogo. A patir desta experiência de trocas, acrescento alguns comentários ao texto inicial.

Quando Fátima pediu que falasse um pouco mais sobre o intransmissível da psicanálise e o possível de transmitir e, ainda, sobre a relação entre entusiasmo e passe, tive a oportunidade de comentar sobre o livro Quartier Lacan: testemunhos (Didier-Weil; Weiss e Gravas, 2007), do qual recupero a seguinte citação:



A articulação produzida por Lacan entre o dizer e o impossível de dizer era inerente à sua concepçãp do inconsciente estruturado como uma linguagem: ela amplia a descoberta, feita por Freud, de um umbigo do sonho, ao colocar que o ser falante encontrava-se excluido de sua própria origem e que permanecia, no inconsciente, um rastro desta exclusão. Ao identificar esse rastro, esse furo umbilical, com o que Freud percebia como recalque originário, Lacan fazia desse recalcado originário a origem estrutural de um furo – ulteriormente borromeano – fundador da falta humana. Não hesitarei em dizer que a transferência que ele suscitou deveu-se à maneira como, para aqueles que aqui dão seu testemunho, ele fez ressoar a existência desse furo. (Didier-Weill, 2007, p.14)



Um trabalho de transmissão faz ressoar a existência do furo, seja em intensão ou em extensão. Entendo que é a isso que o autor se refere, bem como é o que vivi na experiência com Ruiz. Ressonância que ecoa, como disse, ecos que falam de um entusismo e sustentam outros entusiasmos. A psicanálise é intransmissível em sua integralidade, pois não há proporção, não há relação entre teoria e prática. Este desencaixe, esta não proporção, este impossível de transmitir é o que nos força à reinvenção, a qual podemos fazer passar via transmissão.

Este livro registra o testemunho de alguns analistas sobre como o trabalho de Lacan lhes fez ressoar o furo, nem todos foram seus analisantes, mas todos trabalharam com ele no movimento de fazer escola, acompanharam seu ensino e/ou supervisionaram sua clínica com ele. Relatos preciosos sobre a proposta de uma escola, a concepçaõ do passe e o homem Lacan. Fundamental para esboçarmos algumas respostas e, sobretudo, sustentarmos a questão que nos guia na ALPL neste ano: por que uma escola de psicanálise?

Tive ainda a oportunidade de falar um pouco mais de meu percurso a partir do pedido de Fátima, em especial sobre o movimento que me levou a convidar alguns colegas para a fundação da ALP em 2012, fato que, certamente, compõe a minha resposta para nossa pergunta eixo de 2026. Conhecer e trabalhar com Aurélio Souza e Clara Cruglak (por volta de 2009) foram marcos fundamentais em meu caminhar com a psicanálise. Eles me ajudaram a produzir modificações importantes que começara a fazer em minha leitura da prática clínica e neste caminhar fui construindo a importância do “entre outros”, o que culminou no movimento para a fundação da ALPL. O trabalho anterior junto à saúde pública e ao ensino universitário, também foram experiências cruciais em meu percurso, inclusive para perceber seus limites ao trabalho como analista, da maneira como o concebo hoje, seja em intensão ou em extenção.

Reitero os agradecimentos feitos inicialmente e finalizo com meus agradecimento ao leitor deste texto.

Zeila Facci Torezan



[1] Referência ao seminário 13, “O objeto da psicanálise”, onde Lacan trabalha, com o quadro “As meninas” de Velasquez, a presença do analista na composição do quadro clínico, na estrutura que se arma em transferência. Em outro texto de minha autoria, “O analista na estrutura”, proponho pensarmos também o analista na estrutura da escola. Texto disponível em: https://www.associacaolivrepsicanalise.com.br/publicacao/o-analista-na-estrutura

[2] AAVV; Roger Bastide: Sentidos y usos del término estrutura em las ciências del hombre. Buenos Aires: Paidós, 1978

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