Este trabalho é fruto de um estudo de cartel realizado nos anos de 2016 e 2017, com colegas da ALPL, onde trabalhamos com o Seminário 17 de Lacan, intitulado “O Avesso da Psicanálise”. Neste, ele desenvolve a ideia de que a Psicanálise é o avesso de um determinado tipo de discurso, que imperava no público e no local para o qual ele se dirigiu na época.
Pretendo desenvolver, a partir do que avancei na teoria dos discursos de Lacan, sobre o que um analista faz para viabilizar o Discurso do Analista numa análise, que, penso eu, será a base para que a estrutura gire e a análise seja possível. Lacan (1969-70/1992) diz que numa análise o discurso circula, passando de um discurso ao outro, dando um quarto de volta, a cada vez.
Primeiramente vou falar sobre o que entendi sobre esses matemas que Lacan (1969-70/1992) utiliza ao longo do seminário. Ele coloca que o discurso é uma estrutura, e que ele não necessariamente é composto por palavras. O discurso são formas de fazer laço dentro da sociedade, e também numa análise. Sua estrutura é fixa, e os termos dele variam de posição, instituindo quatro tipos de discurso: do mestre, da histérica, do analista e do universitário.
Lacan (1969-70/1992) usa quatro letras para designar os termos, que respeitam uma distribuição espacial, sendo os seguintes: (1) S1, o significante mestre, é o que dá o nome ao discurso e que o dirige. Coelho (2006) coloca, a partir de Lacan, que o S1 é a condição da articulação da cadeia, estando fora dela. É um significante sem significação.
S2 designa o lugar do Outro, dos significantes que estão postos a priori, constituindo o saber inconsciente. S2 é um conjunto de significantes que forma uma rede e essa rede forma um saber, um saber sem sujeito[1].
A concatenação de S1 e S2 possibilitam o surgimento do sujeito, estruturando uma cadeia mínima para a significação. Representado pela cifra $, é o sujeito dividido, ou sujeito barrado. Este não se identifica ao indivíduo, muito menos ao sujeito cartesiano. Da acordo com Lacan (1969-70/1992) o sujeito que se trata em Psicanálise é esvaziado de toda substância, ou seja, é evanescente.
O objeto a designa o mais-de-gozar[2]. Lacan diz que esse gozo representado no discurso é um gozo fracassado, uma vez que é impossível alcançá-lo. O objeto a opera a partir da abertura existente entre a perda de um gozo que nunca existiu e a promessa de sua recuperação (que na verdade nunca se realiza).
Conforme esses termos circulam em um quarto de giro, configuram cada um dos quatro discursos.
Já com relação à estrutura, esta é fixa, sendo configurada da seguinte maneira: (2) O agente é o lugar do que determina a ação, e define o nome do discurso. Este aparentemente organiza o discurso. O outro é a alteridade à qual o discurso se dirige, é sobre quem incide a ação. A produção é o produto do discurso, resultado do dito do primeiro e o trabalho do segundo. A verdade é o que fundamenta o discurso, ou seja, estando localizada sob o agente, é ela quem na verdade o impulsiona.
De acordo com Lacan (1969-70/1992), a verdade nunca pode ser totalmente conhecida. Ele escreve isso colocando duas barras separando a produção da verdade (//) e diz que isso demonstra a impossibilidade dos discursos, presente de forma específica em cada um.
O meu foco neste trabalho é me debruçar sobre o Discurso do Analista, ressaltando que ele não existe isolado, e tampouco diz respeito ao ser do analista. Conforme foi dito, o discurso implica no laço estabelecido, no caso, em uma análise.
Vamos pensar então na escrita do Discurso do Analista: (3)
No lugar do agente o a
No lugar do outro (trabalho) o $
NO lugar da produção S1
No lugar da verdade S2
Lacan coloca que o discurso do analista é o único que admite que a verdade toda não é possível de ser alcançada (todos os demais discursos têm a pretensão de apreender toda a verdade, porém nunca conseguem). E mais, ela não está atrelada à produção de um saber. A respeito disso, ele (LACAN, 1969-70/1992), diz: “o sujeito suposto saber escandaliza quando me aproximo da verdade” (p. 179).
O analista sabe, a partir de sua própria experiência de análise, que não é possível saber toda a verdade (castração). Lacan (1969-70/1992) chama isso de Real, e diz que ele não pode ser recoberto pela imagem ou pela palavra. Essa é a impossibilidade colocada no Discurso do Analista: tudo saber.
O discurso do analista, ao situar o S1 no lugar da produção, e o S2 no lugar da verdade, enuncia que a Verdade nunca poderá ser dita toda, uma vez que temos acesso a apenas um fragmento da verdade. O saber é apenas uma versão da verdade. Uma versão possível ao sujeito, ou seja, uma ficção, mas da qual o sujeito pode se valer para dar conta de uma questão. Depois de obter uma resposta satisfatória a questão some. A passagem ao discurso do analista permite ao sujeito formular uma ficção para responder a uma questão. Esta não tem um fundamento científico.
Lacan (1969-70/1992) nos lembra que ser psicanalista não é o mesmo fazer psicanálise. Isso implica em que, somente existe psicanalista quando há um ato psicanalítico. Penso então que nem todo momento de um atendimento psicanalítico existe uma análise, nem tampouco um psicanalista. E quando um psicanalista se põe a falar de sua prática, ou se propõe a transmitir a Psicanálise, como faço aqui, ele pode ocupar muitos lugares, fazendo operar o discurso do mestre, do universitário, por exemplo, mas não o de analista.
Bom, se a suposta presença de um psicanalista numa análise não garante o ato analítico, ou uma psicanálise, quando isso se dá de fato? A partir de Lacan penso que um analista, sendo posto em posição de Sujeito Suposto Saber, não atende à demanda do analisando, mas posiciona-se enquanto enigma frente a ela. O analista já aceitou, a partir de sua própria análise, que há sempre um saber que escapa[3].
Assim Lacan (1969-70/1992) coloca que o analista devolve a suposição de saber ao inconsciente do analisando. Em minha prática, quando o analisante diz que não sabe o que falar, costumo dizer pra que ele fale sem saber. O saber que se trata na análise não é o saber consciente. Lacan diz que o saber do analisante é o S2, saber recalcado, inconsciente.
Lembro-me de um paciente recém chegado que me pergunta como funciona o meu trabalho, se eu lhe daria um feedback, se lhe diria uma forma de eliminar o seu mal-estar (que eram incompreensível, sem motivo, para ele). Respondi que o trabalho era esse que ele já fazia, de falar sem se preocupar com o conteúdo de sua fala, nem buscar uma resposta. E que meu papel seria ajudá-lo a escutar-se nessa fala. E quem sabe ir pelo caminho de buscar saber do que esse mal estar fala, ao invés de tentar calá-lo. Que eu não tinha como saber suas razões, a não ser pelo que escutava da própria fala dele. A função do psicanalista em uma análise é a de montar a cena que favoreça a aparição do conteúdo inconsciente. Quando ele convoca o sujeito suposto saber a falar - em associação livre - sobre seu sofrimento, seu sintoma, sua história de vida, comparecem em sua fala os significantes primordiais que o marcaram, os significantes mestres (S1). Cito Lacan:
...Eu insisti frequentemente nisso, que nós somos supostos saber não grandes coisas. O que a análise instaura é justamente o contrário. O analista diz àquele que está para começar: ‘Vamos lá, diga qualquer coisa, será maravilhoso’. E é ele que o analista institui como sujeito suposto saber (...) E a transferência se funda nisto - há um cara que diz a mim, grande babaca, que me comporte como se soubesse do que se trata. Posso dizer, seja lá o que for, e isso sempre vai dar em alguma coisa (...) (LACAN, 1969-70/1992, p. 54).
Para que isso seja possível o analista se posiciona enquanto semblante de objeto a. Assim, continuando na escrita do Discurso do Analista, o agente do discurso, conforme foi falado, é o objeto a. Ao se fazer de semblante de objeto, o analista promove a aparição da relação do analisante com seu objeto a (ou podemos dizer, a partir de Lacan, da posição dele enquanto objeto diante de seu Outro – ideia que desenvolvi no meu trabalho da jornada de 2017).
Mas o que significa posicionar-se enquanto semblante de objeto a? Pois sabemos que esta posição do analista não identifica-se à famosa “cara de paisagem, alface, ou fazer-se de morto, múmia que nada fala”, figura caricatural de muitos que desconhecem ou fazem chacota do psicanalista lacaniano. Conforme já foi falado, o analista é digno de assim ser chamado quando atua, ou seja, age. Não tem nada a ver portanto com confundir-se com os objetos de decoração da sala de atendimento. Quanto à atuação, ou às intervenções do analista, encontro em Lacan (1969-70/1992) as interpretações, pontuações, cortes, etc. O que gostaria de destacar é um fator bastante trabalhado por ele neste referido seminário, que é a relação entre o saber e a verdade. Não pretendo esgotar a temática, de extrema complexidade, mas deixo aqui o que pude apreender até o momento. Nas palavras de Lacan: “a interpretação é um saber sem verdade ou é uma verdade sem saber” (p. 24).
Continuamos no enigma lacaniano. Forbes (1993) nos ajuda a compreender, ao destrinchar as diversas formas de realizar a interpretação: o equívoco e a citação. Ele diz que quando uma interpretação é uma verdade sem um saber, ela é um equívoco. Implica em intervenções do tipo formulações paradoxais, ou que jogam com a homofonia ou o equívoco das palavras. Já na citação é ao contrário, existe um saber, mas não existe verdade. Saber de meia verdade, como diz Lacan (1969-70/1992), implica em um saber que não é todo.
Isso me faz lembrar em todas as vezes em que li ou ouvi psicanalistas dizendo (e em minha própria prática, ao longo do tempo) de intervenções pelo humor, chiste, ditados populares, ou seja, falar sem tudo dizer, sem um sentido completo, fechado. E das vezes em que o paciente não entende o que eu disse, e eu consigo ficar quieta, e eles conseguem continuar falando.
Avançando mais um pouco na escrita do discurso do analista, no lugar da produção está o S1, o que implica, segundo Geocze (2015) e Bueno (2015) que o analisando produza um saber sobre a sua verdade. Esta verdade é diferente da que ele traz a princípio para a análise (conforme foi falado, os significantes mestre que o marcaram em sua história). É a verdade colocada anteriormente, uma “meia-verdade”, ou seja, produzir outros significantes mestres, desalienando-se de seu Outro. Isso implica, segundo Forbes (1993) em que o sujeito deixa de ser dirigido pelo saber inconsciente (do qual chega sem nada saber) ao aceitar pôr-se a trabalhar em sua própria vida. Lembrei-me do que Freud (1932) dizia, a respeito de o Isso se tornar Eu.
Para finalizar, penso que esses dois anos de estudos me ajudaram a avançar em uma questão que tem me tomado desde que comecei a trabalhar com os colegas da ALPL (há cinco anos atrás) que refere-se à posição, a ética e à atuação do psicanalista. Antes disso, estudara, ensinara e trabalhara com Psicanálise, e acreditava que as duas coisas se equivaliam. Ao longo do tempo fui entendendo que falar de Psicanálise, ser um psicanalista e fazer Psicanálise são três coisas distintas. Isso tem me ajudado a me desvencilhar de ambições terapêuticas, desidentificar-me de discursos totalizantes, diminuir cobranças superegóicas e sentir-me mais confortável, ao delimitar um lugar que é um só, muito específico. Penso que, apesar de trabalhoso, por ir contra toda a lógica que estava acostumada a utilizar, e que faz parte das relações cotidianas, é mais fácil, pois respeita o caminho individual, a minha estória, e a construção do meu estilo. Talvez isso tenha possibilitado o início da construção de uma via de trabalho.
REFERÊNCIAS
Bueno, C.M.O. Laço Social como Discurso: questões sobre sua escrita. N. 243, Marc. 2015. Disponível em: http://www.appoa.com.br/correio/edicao/243/laco_social_como_discurso_questoes_sobre_sua_escrita/187. Acesso em 2/01/2018.
Coelho, C.M.S. Psicanálise e laço social - uma leitura do Seminário 17. Mental v.4 n.6 Barbacena jun. 2006. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-44272006000100009. Acesso em: 7/12/2017.
Falcão, A.L.B. Desejo de Analista. ( ). Disponível em: www.interseccaopsicanalitica.com.br/.../ALBFalcao/.../albfalcao_desejo_analista_upld.... Acesso em 20/01/2018.
Forbes, J. Os Eixos da Subversão Analítica: os quatro discursos. Instituto de Psicanálise Lacaniana (IPLA). 1993. Disponível em: www.psicanaliselacaniana.com/.../Oseixosdasubversaoanalitica-osquatrodiscursos.pdf. Acesso em 7/12/2017.
FREUD, S. (1932). A Dissecção da Personalidade Psíquica. Novas Conferências Introdutórias Sobre a Psicanálise. V. XXXI. Rio de Janeiro: Imago, 2006. P. 63-84.
Geocze, C. O lugar do analista na direção do tratamento: uma proposta subversiva de Lacan. (2015) Disponível em: https://hypersonic2012.wordpress.com/o-lugar-do-analista-na-direcao-do-tratamento-... Acesso em 4/12/2017.
Lacan, J. (1969-70). Seminário 17 - o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
Longo, J.L. e D´Agord, M.R.L. O Saber no Lugar da Verdade e a Verdade com o Saber a Mais. Trivum [online]. 2012, vol.4, n.2, pp. 24-32. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S2176-48912012000200004. Acesso em: 23/11/2017.
Oliveira, C. (2008) O chiste, a mais-valia e o mais-de-gozar. Revista Estudos
Lacanianos. Ano I, n.º 1, janeiro-julho 2008. Disponível em http://www.fafich.ufmg.br/estudoslacanianos/art.html. Acesso em 07/02/2018.
Souto, L.A.S.; D’AgorD, M.R.L.; SgarionI, M.M.Gozo e mais-de-gozar: do mito à estrutura. Clínica & Cultura v.III, n.I, jan-jun 2014, 34-44. Disponível em: https://seer.ufs.br/index.php/clinicaecultura/article/download/644/2508. Acesso em 07/02/
2018.
[1]O inconsciente é uma cadeia significante que não pertence a ninguém; o sujeito só pode existir em relação ao Outro, que lhe é prévio.
[2]Analogia que Lacan faz à mais-valia de Marx, conceito que une a falta ao excesso. A ideia fundamental é a de que o discurso pressupõe a perda de um objeto (gozo) que deverá retornar enquanto objeto a ser recuperado: mais-de-gozar. Da mesma forma, Marx refere-se à existência deum mercado no qual o trabalho é comprado/vendido como uma mercadoria. Ao vender sua força de trabalho para o mercado, o trabalhador vende algo que será pago, mas também algo que não será. A diferença entre o valor pago pelo trabalho e o que o capitalista ganha com a produçãoresultante é o lucro, ou a mais-valia. Antes dessa lógica, o trabalhador nunca usufruiu do valor de troca de seu trabalho, mas agora que pertence ao mercado, ele não goza mais disso. A rigor, ele nunca gozou. Mas ao perdê-lo pode partir em busca da sua reconquista. Mas, diferentemente da mais-valia, o mais-de-gozar não seria um excedente a que se renunciou, porém um a mais ou a menos que nunca esteve lá (OLIVEIRA, 2008; SOUTO et al, 2014).
[3]Longo e D´Agord (2012) explicam que essa verdade diz respeito a que o ser humano não sabe sobre o gozo, e Falcão ( ) diz que este saber trata-se do desejo.