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Textos Jornadas de Cartel

Então, o que resta?

por Mônica Fujimura Leite

Falar da experiência de cartel, para mim, não é fácil. É difícil expor o meu ser, as minhas experiências, em especial as dificuldades, vivenciadas ao longo destes dois anos. Mas faz sentido, se transmitir em Psicanálise é se colocar na cena, não poderia ser de outra forma. Me reencontro então, com o mesmo desconforto advindo da transmissão do meu fazer clínico, com um agravante: ali apareço enquanto função, aqui, compareço com o meu ser.

A intervenção da Zeila no fórum da Fernanda há algumas semanas, acerca da transmissão da Psicanálise, me remeteu a isso. Para mim, o posicionar-se enquando analisante que Lacan (1970/2003) traz, refere-se a nos colocarmos a partir de nossa divisão. Falamos do que nos faz questão; ademais, a devolutiva dos que nos escutam também nos colocam questões que nos põem a trabalho. Falar é difícil porque mostra nossa posição de sujeitos.

E partir da fala do Edinei, no mesmo fórum, sobre os discursos, pensei também se aqui falamos posicionados no discurso da histérica? Só então me dei conta que, de fato, é diferente do discurso do analista, posição que ocupamos enquanto analistas. Então, na verdade, falar aqui, seja sobre a nossa clínica (apresentação de caso, fórum), sobre a teoria (seminário de fundamentos, grupo de estudos) ou sobre o cartel, falamos sempre de um mesmo lugar.

Falar desde esse lugar, sem nos defender com a teoria é algo muito difícil. E muito precioso também. Neste trabalho, a teoria serviu então pra dar contorno à minha vivência neste cartel.

Começo pelo final: no fim do ano passado tivemos a nossa primeira reunião intercartéis, onde sinalizei a minha dificuldade com a não presença de um mais-um estabelecido. A proposta de nossa associação é a de que a função circule entre os membros do cartel. Fui informada de que esse era o desafio e a própria vivência do cartel, e que isso deveria ser posto em trabalho. E no trabalho final na dissolução do cartel.

A ideia de que a produção era a da própria experiência, e não só do que foi possível apreender de teoria foi nova pra mim. Hoje, fica até difícil falar de uma apreensão de teoria sem passar pela experiência do vivido, parece tão óbvio, mas penso que até aquele momento, tal obviedade era a vivência disso na solidão de meu fazer clínico.

Não que eu fizesse isso sozinha, o estudo da Psicanálise sempre foi em pares, mas eu nunca havia incluído o que eu vivi entre eles para pensar a teoria. O alinhavo da experiência sempre foi com a minha clínica.

Pois bem, ao conversar em nossa última reunião do cartel (onde estudamos o Seminário 21) sobre falar dos desencontros vivenciados nos estudos conjuntos, me encontrei com a dificuldade de como fazer isso neste espaço. Até então, ao entender o cartel como um local para estudo, a resposta já estaria dada, qualquer situação que atrapalhasse isso não deveria compor a cena. Lembrei de uma aula do Leonardo Danziato, onde ele fala que essa era a noção de Real no início para Lacan. O Real era o que ficava de fora.

Agora, porém, no avanço da teoria, com o advento do nó borromeu, o trabalho passaria a ser com os três: enlaçados, Real, Simbólico e Imaginário, que seriam então equivalentes em importância e localização[1].

 Hoje entendo que tivemos muitas invasões dos Real em nossos encontros: acidentes, problemas com familiares e no trabalho; os quais se reverteram em atrasos, faltas, desmarques e não leituras prévias. Me vi incomodada com um ritmo mais lento, um menor rendimento e a mudança nos horários e frequência de nossos encontros.

Mas não expus o meu incômodo de pronto. Por que? Porque haviam justificativas para as ausências, por achar que nada mudaria, que não é importante o que eu acho, por não querer parecer ranzinza...Tinha muitas respostas prontas, e não fui capaz de pôr em questão o outro e a mim mesma. Excesso de Imaginário?

O sentido é amarrado na operação de significação. O Imaginário dá uma consistência, barra o deslizamento significante na operação de sentido.[2]

Porém, ao longo dos encontros, essa fala foi aparecendo: falamos do que estava acontecendo em nossas vidas (o que chamei de invasões do Real), compartilhando angústias, sofrimentos e a necessidade de investir energia libidinal em outras coisas; as mesmas que nos impediam de estarmos juntas, conforme o combinado. Aos poucos fui me permitindo dar espaço para isso e construir conjuntamente novos combinados.

E isso teve um efeito. Na nossa última reunião de cartel, falamos de como esse espaço foi importante pra podermos nos colocar – a despeito de todas as dificuldades que o texto e a vida nos impunham – e eu disse de como ali eu me sinto à vontade de produzir, tenho a liberdade de dizer o que penso, trazer associações, sem medo de julgamentos. E de como a não relação de mestria que o cartel propõe me punha mais a trabalho.

Hoje entendo que falar foi uma forma de simbolizar: falar, a partir de mim, dos efeitos que os encontros me causavam, encontro com o Outro mesmo, com a alteridade, seja ela na forma das letras de Lacan ou das colegas. Também esse ritmo próprio que fomos criando a partir de considerar as limitações e os tropeços de cada uma, foi uma invenção[3] do grupo para lidar com isso que não temos controle. Mas que está presente na cena, e precisa ser enodado.

Neste seminário Lacan (1973-74) lembra que o sentido não é fixo, ele pode ser modificado a qualquer momento, a partir do deslizamento na cadeia significante. Isso decorre do fato de o Simbólico portar um buraco, falta um significante no conjunto da linguagem (campo do Outro)[4]. E é justamente nesse fato que o sujeito pode comparecer.[5]

Por outro lado, por mais que as pessoas digam o que estão vivendo, fica sempre um tanto sem compreender, não dá pra saber se seria possível aquela pessoa fazer diferente diante do que viveu. A compreensão tem um limite, a comunicação é falha[6]. Estamos sós com o nosso desamparo ao falarmos. O mal-entendido, o desencontro, o pôr em questão o nosso desconforto evidencia justamente essa solidão.  Lacan (1973-74) diz que esse furo do Simbólico é a não relação sexual, a impossibilidade de dizer do Real. Não existe um sentido completo, não falamos para comunicar. Mas quando falamos passamos a sofrer menos, pois a linguagem permite fazer um certo esgotamento do gozo do corpo. [7]

De nossa parte, mesmo não podendo dizer tudo, foi possível dizermos algo, falamos do Real da morte que o envelhecimento nos recorda, do Real do gozo do corpo que o adoecimento traz, do Real do amor de nossos laços edípicos (onde fomos um dia objetos do Outro) – contingências que nos atravessavam individualmente e enquanto grupo, pois faziam efeitos nele.

A estrutura do sujeito começa com um buraco, dado pela intervenção do Simbólico no Real. Lacan faz todo esse trabalho com o nó borromeu na tentativa de escriturar o Real, e repete várias vezes ao longo deste seminário como são necessárias as outras duas dimensões para deduzir a existência dele, já que este não é verificável.

Ele diz que são, portanto, necessários três: Imaginário, Simbólico e Real, enodados de uma forma específica, em torno do buraco central. Desta forma, as retas não deslizam e se fixam, formando o triskel (figura central do nó)[8].  Esse buraco é irredutível.

Assim, Lacan coloca que é porque a relação sexual não existe que fazemos laço. Neste seminário ele diz que é preciso ser tolo do Real, ou seja, lidar com ele, apesar dele[9]. E falar é uma forma de tocarmos nesse Real, fazendo borda a ele, pelo Simbólico (grafar o gozo do corpo, esvaziá-lo).

Até certo ponto dos encontros eu achava que não tinha entendido nada do que havíamos estudado. Até me perceber falando de Simbólico, Imaginário e Real nas discussões de caso e nos grupos de estudo. Ao final me surpreendi de que algo havia sim restado. Relatei isso ao grupo em nosso último encontro, e disse que achava que tinha entendido um pouco de cada uma das dimensões e que agora faltava enodá-las.

Mas agora, ao final de meu relato, conforme entendi do que Lacan propõe, só é possível saber de um, no enlaçamento com o outro. E penso que assim seja com a gente também, não se trata de diferenciar as minhas questões das demais pessoas, ou das do grupo. Mas é no movimento articulado de cada uma, em conjunto, que a coisa acontece. Lembrando, por fim, que Lacan nos alerta de que as instâncias (R,S,I) estão na mesma dimensão, mas não são equivalentes ou iguais.

Assim, Imaginário, Simbólico e Real estão presentes desde o início: o Simbólico enquanto rede linguajeira que antecede o sujeito, o Imaginário enquanto corpo que dá consistência, e o Real como o que faz buraco, ranhura. Escrevendo R,S,I, enodei teoria, prática e vivência da Psicanálise em cartel. Eis o meu nó, o que restou desta experiência.

 



REFERÊNCIAS

LACAN, J. Alocução sobre o meu Ensino (1970). In: Novos Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.  

 

LACAN, J. Os não-tolos vagueiam (1973-74). Salvador: Espaço Moebius Psicanálise, 2016.

 



[1] “Dimensões de nosso espaço habitao enquanto seres falantes, essas três categorias são estritamente equivalentes.” (LACAN, 1973-74, p. 17)

[2] “O inconsciente é um saber com o qual o sujeito pode se decifrar. (...). Ele o decifra, aquele que, por ser falante, está em posição de proceder a essa operação, que é aí, forçada até que ele atinja um sentido. E é aí que ele para, porque é preciso parar. (...) Não há nenhum inconveniente em que eu imagine compreender: isso esclarece o sujeito (...).” (LACAN, 1973-74, p. 12-13)

“O Imaginário é uma dizmansão tão importante quanto as outras (...). O imaginário é o que detém a decifração; é o sentido (...) é preciso parar em algum lugar.” (LACAN, 1973-74, p.14).

 

[3] “Mas todos nós sabemos porque todos nós inventamos um negócio para preencher o buraco do Real! Ali onde não há relação sexual, isso faz troumatismo: inventa-se.” ((LACAN, 1973-74, p. 143).

 

[4] “Essas inscrições do desejo indestrutível seguem o deslizamento. (...) Então, a estrutura simbólica está no fim desta Traumdeutung...” (LACAN, 1973-74, p. 31).

 

[5] O saber inconsciente é uma invenção, como uma forma de fazer suplência à não relação sexual). “O inconsciente não descobre nada, porque não tem nada pra descobrir. Ele inventa”. No miolo do nó, o sujeito, na posição de a, tenta dar conta dos efeitos de Real, Simbólico e Imaginário). Lacan chama de “dizer verdadeiro” o melhor que o sujeito pôde fazer com isso (o sintoma é um dizer verdadeiro). Por isso a Psicanálise não trabalha com os fatos, mas com o dizer verdadeiro de cada um.

“...no que faço aqui como analista, já que é daí que eu falo: eu não descubro a verdade, eu a invento.” (LACAN, 1973-74, p. 137).

“...esvazia esses termos de todo o sentido, transformando-os em letras, quer dizer, em coisas que por si mesmas não querem dizer nada, é assim que se dá os primeiros passos no que chamei a ciência do Real.” (LACAN, 1973-74, p. 122)

“O dizer verdadeiro é a ranhura por onde passa o que é mesmo preciso que ele supra: a impossibilidade de escrever a relação sexual. (...) E é daí que resulta o que é do dizer verdadeiro – pelo menos o que nos demonstra a prática do Discurso Analítico: é que ao dizer a verdade (aquelas babaquices que nos vêm à cabeça) que se chega a abrir caminho a alguma coisa que é realmente contingente.” (LACAN, 1973-74, p. 123)

 

[6] “A relação do homem com a linguagem, a qual só pode, simplesmente tratar-se na base disso: que o significante é um signo que não se endereça senão em direção a outro signo...Isso não tem nada a ver com a comunicação com algum outro (...) Isso tem por efeito um sujeito.” (LACAN, 1973-74, p. 37)

 

[7] O falo é um obstáculo à relação sexual, ele vem em substituição ao ser que nós perdemos da natureza - somos seres de linguagem. Não nascemos homem ou mulher, nos posicionarmos como um deles é um saber inventado por cada um, na sua relação com o Falo. Assim, o gozo do corpo é grafado pela linguagem (determinado pelo Simbólico). O gozo é originalmente do corpo, a linguagem faz um ciframento (significação, esvaziamento), transformando-o em um gozo sexual, passando a ser um gozo na linguagem (gozo fálico).

 

[8] A consistência do nó borromeu é dada pelo enodamento das três dimensões (R,S,I).

 

[9] “Flutuar um pouquinho mais acima da noção da viagem daqueles que são tolos do inconsciente, isto é, aqueles que não fazem todos os esforços para se colarem nele...” (LACAN, 1973-74, p. 25).

“....o buraco que faz para sempre a impossibilidade de escrever a relação sexual como tal, é a isso que somos reduzidos quanto ao que é essa relação sexual: a realizá-la mesmo assim.” (LACAN, 1973-74, p. 123).

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