Parto da questão: “Podes me perder?”, para este recorte que faço em torno do tema “O desejo do psicanalista”, tomando este como um operador clínico e lanço outra questão: como pensar essa interrogação, que caracteriza a operação de separação, em relação ao desejo do analista e à clínica?
No seminário 11, Lacan diz: “O fim de meu ensino tem sido, e permanece, o de formar analistas. (...) Contudo, na literatura analítica, os princípios escapam. (...) não há para o psicanalista nenhum além, nenhum além substancial ao qual se pudesse reportar aquilo em que ele se sente fundado para exercer sua função.” (p.224) Mais adiante segue, no tocante à formação, dizendo: “A formação do psicanalista exige que ele saiba, no processo em que conduz seu paciente, em torno do que o movimento gira. Ele deve saber, a ele deve ser transmitido, e numa experiência, aquilo de que ele retorna. Esse ponto-pivô, é o que designo (...) pelo nome de desejo do psicanalista.” (p.225)
Frente aos princípios que nos escapam, o desejo do psicanalista, assim como o saber do psicanalista, o ato do psicanalista e o discurso do psicanalista, podem servir de “instrumentos” ao processo psicanalítico, ao que chamamos “operadores clínicos”.
O que é o desejo do psicanalista? Arrisco a dizer que um produto da análise.
Castro (2019) destaca, com relação ao desejo do psicanalista: “A importância dada ao desejo, como fundado na falta, e ao corte, como modo de aponta-la na relação com o desejo do Outro, são então termos que compõem o ponto/eixo denominado por Lacan de ‘o desejo do psicanalista’, ponto esse em torno do qual Lacan já estabelece algumas coordenadas éticas da psicanálise.” (p.20) E destaca que, para Lacan o desejo do psicanalista é tido como ‘advertido’: “Podemos ainda pensa-lo como advertido porque já atravessado pelos enganos e desenganos do psicanalista relativos à transferência e a seu pivô/semblante, o sujeito suposto saber” (p.20)
Falta e corte como termos que compõem o desejo do psicanalista. Podemos aproximar esses termos dos termos alienação e separação? Pensando que a alienação é o que produz a falta, considerando que quando o sujeito é introduzido na linguagem, fica alienado ao significante, que significa o sujeito a um outro significante, mas que não há nenhum que o diga ‘tu és’, institui-se a falta. Já o corte, pareceria óbvio que produziria a separação, mas talvez seja uma aposta, de que algo possa ser perdido e então, se institua um desejo. “Presentificar o vazio é, portanto, uma função inerente e necessária ao desejo do psicanalista.” (CASTRO, 2019, p.19)
Essa idéia me conduz a uma outra questão que surgiu ao longo deste trabalho: seriam as operações alienação e separação duas operações distintas, ou poderíamos dizer de dois tempos de uma mesma operação? Podemos pensar em dois tempos de um processo, do processo analítico?
Lacan, no texto “Do “Trieb” de Freud e do desejo do psicanalista” amplia essa questão: “Qual pode ser o desejo do analista? Qual pode ser o tratamento a que ele se dedica?” (LACAN, 1998, p.867) Ainda nesse mesmo texto: “qual a finalidade da análise para além da terapêutica? Impossível não distingui-la desta quando se trata de produzir um analista.” E completa: “(...) é o desejo do psicanalista que, em última instância, opera na psicanálise” (Ibd, p.868)
“Um desejo de obter a diferença absoluta (...)”.(LACAN, 1964,2008, p.267) Como podemos entender essa afirmação? Temos que o significante representa o sujeito para outro significante. Obter a diferença absoluta seria atingir o entre um e outro significante a partir de desbastar os sentidos até o encontro com o sem-sentido, ou melhor, com o não-sentido? Com isso, a interrogação de início: ‘Podes me perder?’, participaria como desse processo? Quem faz essa interrogação quando pensamos no processo psicanalítico?
Rabinovich nos aponta, no livro que trabalhamos: “O desejo do psicanalista”, seguindo as letras de Lacan, que essa interrogação aponta para a prova do desejo. Quando esta é lançada, a resposta que retorna indica o quanto o sujeito é causa do desejo do Outro, e como ela bem assinala, para ser causa, há que ser perda, para ser perda, uma afirmativa a essa questão deve ser alcançada, o que a faz afirmar: “A perda não acontece, ela é buscada.” (p.136)
No processo de análise busca-se esse efeito de perda, implicando assim as operações de alienação e separação, e penso que com isso nos aproximamos da questão colocada no inicio: como pensar a interrogação, ‘podes me perder?’, que caracteriza a operação de separação, em relação ao desejo do analista e à clínica? Nesse processo, o analista percorre esse circuito que tem início na falta, passa pela perda, que produz causa, retornando ao ponto de partida.
Citando Lacan, Rabinovich afirma: “É que [o sujeito] opera com sua própria perda que o leva novamente a seu ponto de partida.” (p.127) E complementa: “(...) não diz operar com sua falta, mas sim com sua perda – é exatamente a operação própria e característica da análise no seminário XV. O com indica a função instrumental da perda. A perda é um instrumento, algo com o qual se faz algo. (...) formulações sobre o lugar do analista em sua articulação com o objeto: é preciso deixar que façam com ele.” Assim temos que o sujeito parte da falta, e busca se fazer perda. Podemos pensar que o corte que o psicanalista busca fazer operar em uma sessão é uma aposta em se fazer perda? Perder-se do lugar alienado de sujeito suposto saber, para tornar-se objeto causa, lançando com seu ato a questão: podes me perder? Importante salientar que é no “só depois”, como destaca Lacan seguindo o pensamento freudiano, que poderemos dizer se houve ato, se este produziu algum efeito de interpretação para o sujeito. Para tanto, há que ‘fingir esquecer’ qual foi o final de sua própria análise, cito Rabinovich: “Esse “fingir esquecer” qual foi o final de sua própria análise para poder simular, dissimular, aceitar o engano do saber suposto e do sujeito suposto implica que deve fingir esquecer o que ocorreu, quando sabe que de fato ocorreu. Na medida em que consegue isso, pode definir, delimitar e deixar livre o espaço do desejo do analista, esvaziado de seu próprio desejo e de sua causação em relação ao desejo do Outro. Isso implica, consequentemente, uma posição complexa para o psicanalista.” (p.30)
É possível dizer, alienar-se à esta posição para então se fazer perda através do corte? De outro lado, ao produzir o corte, o psicanalista aposta na possibilidade de que este atinja um estatuto de ato, isso significa, que produza ao analisante um efeito de interpretação, ... “para isso, o desejo do analista deve buscar essa diferença absoluta que permita a separação do sujeito na experiencia.” (RABINOVICH, 2000, p.145)
Trago uma vinheta de sessão com uma paciente em trabalho há algum tempo: Amanda é a terceira de três filhas. Inicia essa sessão perguntando como que o analista escolhe a palavra que destaca ao longo da sessão. Dá como exemplo a sessão anterior dizendo que a palavra que ficou destacada foi ‘disputa’. Pedi para que ela falasse o que lhe passava pela cabeça quando essa palavra surge. O que lhe vem à cabeça é a disputa que sempre teve com suas irmãs pela atenção dos pais. Parecia que os afetos dos pais eram limitados, e então ela tinha que ficar disputando com as irmãs, disputa essa que ela já entra em desvantagem, pois a irmã mais velha era a preferida do pai, que muito se alegrou com a chegada de sua primogênita (era a história que ela ouvia), já a irmã do meio era a preferida da mãe e então, quando ela nasceu, restaram-lhe apenas migalhas de afeto. Imaginava que nessa terceira gestação eles desejariam que fosse um menino, e que ter nascido outra menina não teve muita graça. Ela diz: ‘fiquei meio sem graça. E além disso, eu era uma criança muito difícil’.
Pergunto o que significa ser uma criança difícil!!?? E ela diz que é não ser boazinha, não fazer as coisas do jeito que os pais pedem, na hora que ele pedem, fazer birra, diz que tem histórias desses birras que os pais contam até hoje e todo mundo dá risada. Pergunto: “E sobre suas irmãs, quais são as histórias?” Ela fica reticente e responde: ‘Ah...não tem, quer dizer, deve ter sim!’
Repito sua fala: ‘Muitas histórias que todos riem? Parece que nessa disputa você quem vence! Qual será a sua graça?’ Ela cai na gargalhada!! Encerro a sessão.
Convido-os a percorrer alguns significantes que foram deslizando nessa sessão: disputa – desvantagem – migalhas de afeto - sem graça – difícil – birrenta – graça. Parece que a garotinha sem-graça se encontra com alguma graça. O corte da sessão carrega consigo a aposta de uma separação do significante sem-graça, para produzir um novo significante a ‘graça’: qual a sua graça? Vale ressaltar que antigamente essa era uma expressão que usava-se para perguntar o nome da pessoa. Carrega também uma abertura ao sujeito para alienar-se a um novo significante, e uma outra aposta: de que se possa atingir certa margem de liberdade, e que a cada volta desse circuito o sujeito amplie essa margem.
REFERÊNCIAS BILBIOGRÁFICAS:
CASTRO, Júlio Eduardo de. Os operadores éticos da psicanálise: o desejo, o ato, o discurso e o saber da psicanálise. Curitiba: CRV, 2019.
LACAN, Jaques. O Seminário 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, 1964. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
____________. Do Trieb de Freud e o desejo do psicanalista. In: ESCRITOS. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998.
RABINOVICH, Diana S. O desejo do psicanalista: liberdade e determinação em psicanálise. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2000.