O livro de Diana Rabinovich, O desejo do psicanalista: liberdade e determinação em psicanálise, foi uma leitura muito provocativa. Aliás, talvez eu deva dizer que as leituras assim o foram. Um livro rico e denso que precisei ler, reler, consultar outros autores, retomar a fonte das citações, levar as questões pro grupo de trabalho e, muitas vezes, voltar com elas debaixo do braço. Aliás, ressalto aqui a importância do grupo, afinal de contas, não fosse por nossas discussões, partilhas e insistência, talvez eu tivesse abandonado Rabinovich nas primeiras páginas (com a promessa de voltar no adiantar da minha formação). Ainda bem que insistimos, afinal, a tal da questão que passou a orientar este texto surgiu da pedra que Rabinovich evidenciou que morava em meu sapato desde minha incursão pelos caminhos da psicanálise. Se um sujeito é estruturalmente causado pelo significante e pelo desejo do Outro, o que pode uma análise? Essa questão me parece incontornável porque coloca em tensão duas coisas das quais a psicanálise parece não poder abrir mão. De um lado, a determinação. O sujeito não é causa de si mesmo, não escolhe os significantes a partir dos quais se constitui, tampouco escolhe soberanamente o lugar que encontra no desejo do Outro. De outro, se nenhuma modificação é possível diante dessas determinações, seria difícil sustentar o que fazemos numa análise.
Rabinovich coloca essa dificuldade no centro do livro. Já no prólogo, afirma que, se a psicanálise não abre para cada sujeito falante a possibilidade de um “pouco de liberdade”, seu exercício se torna uma fraude. A liberdade em questão, entretanto, não pode ser pensada como ausência de determinação. É a partir desse aparente impasse que a autora traça seu percurso: como sustentar uma margem de liberdade sem transformar o sujeito em causa de si? (RABINOVICH, 2000).
Em “Posição do inconsciente”, Lacan escreve:
O efeito de linguagem é a causa introduzida no sujeito. Por esse efeito, ele não é causa dele mesmo, mas traz em si o germe da causa que o cinde. Pois sua causa é o significante sem o qual não haveria nenhum sujeito no real. (LACAN, 1998, p. 849)
É para formalizar esse advento do sujeito no campo do Outro que entram as operações de alienação e separação. Rabinovich (2000) define a primeira como uma forma de articular esses dois campos e sublinha que o acento de Lacan recai sobre o nascimento do sujeito pela ação da linguagem. No Seminário 11, constituição e perda aparecem no mesmo movimento:
O significante produzindo-se no campo do Outro faz surgir o sujeito de sua significação. Mas ele só funciona como significante reduzindo o sujeito em instância a não ser mais do que um significante, petrificando-o pelo mesmo movimento com que o chama a funcionar, a falar, como sujeito. (LACAN, 1985, p. 197)
O vel da alienação permite apreender essa estrutura por meio de uma escolha que já comporta perda: diante de “a bolsa ou a vida”, escolher a bolsa implica perder ambas, enquanto escolher a vida significa conservá-la decepada. Lacan (1985) também traz a dialética do escravo para exemplificar o vel e explicita que, “não há liberdade sem a vida, mas não haverá para ele vida com liberdade.” (p.212). Ou seja, há uma condição necessária, seja qual for a escolha. Rabinovich (2000) situa aí a alternativa entre ser e sentido, na qual a escolha pelo sentido implica a afânise do sujeito e a perda do ser. Não há, portanto, um sujeito que pudesse recusar a alienação e conservar-se intacto, já que seu próprio advento depende da passagem pelo campo do Outro.
Por isso chama a atenção encontrar a palavra liberdade precisamente nesse ponto. Ao retomar a alienação no Seminário 11, Lacan (1985) afirma:
É isto que explica que eu não tenha podido manejar a relação de alienação sem fazer intervir a palavra liberdade. O que funda com efeito, no senso e não-senso radical do sujeito, a função da liberdade, é propriamente esse significante que mata todos os sentidos. (p. 238)
E acrescenta: “Ele constitui o sujeito em sua liberdade em relação a todos os sentidos, mas isto não quer dizer que ele não esteja determinado” (LACAN, 1985, p. 238).
A liberdade começa, assim, a se afastar de seu sentido corrente de autonomia ou poder de escolha. O sujeito permanece determinado pelo significante, mas essa determinação não consegue dizer definitivamente aquilo que ele é. Há uma não coincidência entre determinação e significação, um intervalo no qual a palavra margem pode começar a aparecer. A margem de um rio não está fora dele, assim como essa liberdade não está fora da determinação. Ela existe no próprio curso, sem se confundir com ele.
A separação acrescenta outra dimensão à pergunta inicial, ao fazer aparecer a determinação pelo desejo do Outro. Lacan localiza esse desejo justamente onde o discurso do Outro falha em responder por inteiro por aquilo que diz. É nesse intervalo que pode surgir a pergunta: “ele me diz isso, mas o que é que ele quer?” (LACAN, 1985, p. 209). Diante desse desejo cujo objeto permanece desconhecido, o sujeito põe em jogo sua própria perda: “o primeiro objeto que ele propõe a esse desejo parental cujo objeto é desconhecido, é sua própria perda: Pode ele me perder!” (LACAN, 1985, p. 210). Assim, “uma falta recobre a outra”, formula Lacan (1985, p. 209).
A separação introduz, então, uma torção na relação ao Outro, porque o campo de onde vieram os significantes que causaram o sujeito também se revela faltante. O Outro fala, deseja, mas não dispõe de uma resposta capaz de dizer inteiramente o que quer ou o lugar que o sujeito ocupa nesse desejo. É diante dessa opacidade que se organizam respostas que podem ganhar a fixidez do fantasma. Rabinovich formula esse ponto ao afirmar que “recusar ao sujeito do desejo que ele se saiba efeito de palavra é recusar-lhe o saber acerca de sua determinação pelo desejo do Outro” (RABINOVICH, 2000, p. 114). A pergunta “o que sou para o desejo do Outro?” não permanece indefinidamente aberta, e uma resposta que se estabiliza pode adquirir, para o sujeito, a força de um destino.
É justamente nesse ponto que Rabinovich introduz a contingência. Ao retomar o problema cristão da predestinação, passa por Santo Agostinho e encontra em Duns Escoto uma formulação que lhe permite separar causalidade de necessidade. Se causas contingentes podem produzir efeitos determinados, algo pode ser rigorosamente causado sem que estivesse destinado, desde antes, a acontecer daquela maneira. A aproximação com a sobredeterminação freudiana torna-se então possível e desemboca na afirmação de que “o caminho de determinação pelo significante, que implica falta, perda e causa, é absolutamente contingente” (RABINOVICH, 2000, p. 123).
O ponto não é enfraquecer a determinação, mas introduzir nela a temporalidade. Aquilo que aconteceu contingentemente pode, a posteriori, adquirir a consistência do necessário e passar a ser lido como se sempre tivesse estado escrito. A experiência subjetiva ganha então os contornos do que Caymmi canta em “Eu nasci assim, eu cresci assim / E sou mesmo assim”, facilmente acompanhados por uma continuação silenciosa, ou melodiosa: “vou ser sempre assim”. É justamente essa aparência de necessidade que a análise pode tocar.
Rabinovich situa aí sua aposta: “Toda análise começa com uma necessidade suposta que cai como contingência, que é e se mostra não-necessária” e, pouco depois, acrescenta que “a outra face dessa liberdade do sentido é a contingência da determinação” (RABINOVICH, 2000, p. 123). Se entendo bem essa passagem, a análise não desfaz o que causou o sujeito nem lhe oferece a possibilidade retrospectiva de escolher outra história. O que pode vacilar é a necessidade com que essa história passou a ser lida. Entre “foi assim” e “tinha de ser assim”, abre-se justamente a margem que interessa a Rabinovich.
A contingência não conduz para fora do curso que constituiu o sujeito, mas permite que esse curso deixe de ser lido como trajeto único. Um rio não escolhe sua nascente e tampouco corre sem leito. Seu curso tem história. Ainda assim, dizer que um rio tem curso não significa dizer que cada uma de suas curvas estivesse contida desde o início na necessidade de chegar ao mar.
Essa imagem encontra, para mim, uma ressonância interessante com alguns vazios que aparecem ao longo desse percurso teórico. Não pretendo fazê-los equivaler, porque pertencem a lugares conceituais diferentes. O que me chama atenção é que a possibilidade de operação parece depender, em diferentes momentos, de algo que não se completa.
Na alienação, a determinação significante não consegue fornecer um sentido que esgote o sujeito. Na separação, o desejo aparece no intervalo do discurso de um Outro que tampouco é completo. Quando Rabinovich chega ao desejo do analista, encontramos novamente uma referência a um intervalo. “O desejo do psicanalista”, escreve ela, deve “oferecer o entre-dois vazio para que ali apareça o desejo do paciente” (RABINOVICH, 2000, p. 143).
Esse entre-dois não é o vazio produzido pela alienação, nem a falta encontrada no Outro durante a separação. Há, contudo, uma ressonância estrutural que me parece interessante: o desejo só pode aparecer onde alguma coisa não foi antecipadamente preenchida por um sentido. Se o analista ocupa esse intervalo com aquilo que pensa que sabe sobre o sujeito, com uma explicação capaz de dizer quem ele é ou com a indicação de qual deveria ser seu desejo, o que se recompõe é justamente o fechamento que a experiência analítica poderia fazer vacilar.
Ao longo do livro, ao interrogar o saber do analista, Rabinovich reúne diferentes coordenadas dessa posição, entre elas o não-saber, o lugar do sujeito suposto saber, a abstinência e o “fingir esquecer”. Este último permite, segundo a autora, “definir, delimitar e deixar livre o espaço do desejo do analista, esvaziado de seu próprio desejo e de sua causação em relação ao desejo do Outro” (RABINOVICH, 2000, p. 30). São diferentes modos de sustentar, na experiência, o vazio em que o desejo possa aparecer.
É nesse sentido que Rabinovich afirma, ao final de seu percurso, que “a meta da psicanálise, para Lacan, é que o sujeito obtenha certa margem de liberdade em relação ao lugar que ocupou como objeto do desejo como desejo do Outro” (RABINOVICH, 2000, p. 145).
Entendo que é também por isso que Rabinovich (2000) recorre à expressão “assumir a própria causalidade”. Assumi-la não equivale a tomar-se como causa de si, mas permite pensar uma responsabilidade que não exige a fantasia de autonomia. Na voz de Gal Costa, Caymmi segue cantando: “quem me batizou, quem me nomeou, pouco me importou”. A nomeação não é indiferente à constituição do sujeito, mas ter sido nomeado pelo Outro não obriga a permanecer preso ao sentido que essa nomeação adquiriu. Trata-se, então, de reconhecer algo dos significantes e das posições pelas quais uma história ganhou determinada forma sem tomá-los como destino.
Voltamos à margem, não como lugar fora do rio, mas como aquilo que se recorta no próprio curso. Uma análise não oferece outra nascente, nem promete ao sujeito correr sem as marcas do leito por onde veio. Se aquilo que foi encontro ganhou posteriormente o estatuto de necessidade, fazer reaparecer algo de sua contingência não apaga o curso percorrido, mas pode impedir que passado e destino continuem sendo a mesma coisa.
E com é isso, por ora, que consigo atravessar o incontornável da pergunta que abriu este texto: o que pode uma análise?
REFERÊNCIAS
CAYMMI, Dorival. Modinha para Gabriela. Intérprete: Gal Costa. In: Gabriela: trilha sonora original da novela. Rio de Janeiro: Som Livre, 1975. 1 disco sonoro, faixa 7.
LACAN, Jacques. Posição do inconsciente. In: LACAN, Jacques. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 843-864.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Versão brasileira de M. D. Magno. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
RABINOVICH, Diana S. O desejo do psicanalista: liberdade e determinação em psicanálise. Tradução de Paloma Vidal. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.