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Satisfação, gozo e Outro: alguns elementos para o paradoxo do sofrimento

por Yohann Saracho

A vida poderia ser muito simples. Nascemos, crescemos, praticamos ou bem, refletimos adequadamente sobre os caminhos que nos proporcionariam uma vida melhor, os trilhamos, nos tornamos felizes e, após repetir esse mesmo ciclo inúmeras vezes, morreríamos. Não há necessidade de anos de análise ou horas dedicadas a seminários sobre a ciência do grande engorda que esse milagre implica. Na realidade, muitas vezes personificamos o oposto dessa premissa. Frequentemente nos direcionamos a situações que claramente nos perturbam e nos deixam insatisfeitos. Insatisfeitos, um "mais escolha" não surge apenas uma vez, mas essa mesma forma de sofrimento insiste em aparecer. Muitas vezes, por anos (ou uma vida inteira) para...

Segue uma citação do seminário 11 para aprofundar essa questão:



Todos os psicanalistas aqui presentes devem sentir que alcancei o nível mais essencial de acomodação. É evidente que aqueles que temos de tratar, os pacientes, não estão satisfeitos, por assim dizer. E, no entanto, sabemos que tudo — ou seja, que eles são saudáveis, que tudo — ou seja, que eles vivem, até mesmo seus sintomas — depende da satisfação. Ele satisfaz algo que é quase duvidoso, mas encontra algo que lhe permita se satisfazer, ou talvez melhor, ele satisfaz alguma coisa . Eles não estão contentes com seu estado, mas, estando nesse estado ainda pouco contentes, contentam-se consigo mesmos. Tudo o que você precisa é saber o que é que te faz feliz ali. (Lacan, 2008a, p. 158).



Aqui destaco a questão que dá satisfação a esse “algo”. Ou o que será satisfeito? Como você será satisfeito? Ao satisfazer, satisfaça esse algo, porém, ou o que é esse algo que Lacan está chamando de forma ampla? Uma das maneiras de responder a essa pergunta é retornar ao conceito de Outro (A).

Elaborado desde o início de seu ensino, assemelha-se a um dos dois principais aspectos do cenário analítico de um diálogo intersubjetivo. A análise não se limita a duas instâncias imaginárias, uma em diálogo com a outra, mas a uma terceira instância que insiste em aparecer, precisamente porque encontra a falha do analista em seu ponto exato. Citando: "Nós nos endireitamos para A1, A2, que é algo que não conhecemos, verdadeiros Outros (...) Eu só vejo aqueles que, fundamentalmente, toda vez que pronuncio uma palavra verdadeira, mas sempre chego a um', um'', por reflexão. Sempre vejo os verdadeiros sujeitos, e tenho que me contentar com eles como sombras." (Lacan, 2010a, p. 331).

A ênfase de Lacan no Outro como operador central em sua construção conceitual reside precisamente na descentralização do indivíduo e no indivíduo como protagonista de sua própria história. Há uma estrutura simbólica específica na qual o sujeito é erguido a partir de/em conjunto com ela.

Uma das principais consequências teórico-clínicas do Outro pode ser ilustrada pelo conceito de extimidade, pois não é possível pensar em uma intimidade que emane de um interior profundo do próprio eu fechado do indivíduo, mas sim em uma intimidade consolidada externamente, no Outro. Agora, prosseguiremos no interior; já estamos no campo do Outro.

Nesse sentido, podemos retornar ao mito de Édipo. Pois, além do parricídio e do incesto, Édipo engendra uma cadeia significativa que foi enunciada antes de seu nascimento pelo oráculo de Delfos. Ao tentar negar essa determinação, ele segue um caminho que culmina precisamente em sua própria afirmação. Édipo, ao se mover, vivifica a cadeia significativa e dá vida a algo desconcertante.

Um ponto importante para os propósitos deste trabalho é que Édipo, após tomar conhecimento de sua vida, perde a visão e permanece como um andarilho. No passo seguinte, vemos que Édipo continua a vagar cegamente, negando completamente a autonomia de sua identidade, declarando sua inocência, murmurando que preferia não ter nascido e que, por causa de seus filhos, a verdade não era sua, mas de dois deuses. Podemos continuar com Alenka Zupancic (2010), que se refere à determinação de sua vida: “Édipo permanece sempre cego, permanece cego por toda a sua vida – aliás, quando finalmente obtém a visão, quando vê o que fez, abre os olhos e diz: 'Prefiro continuar cego!' (p. 190-191).

A partir deste ponto, compreendo que a noção de alegria se torna uma ferramenta necessária para tentar elucidar os problemas levantados. Ao longo do XX seminário, Lacan (2008b) trabalha a noção de alegria do Exterior como um conceito central para a operação analítica.

Para prosseguirmos, detenhamo-nos primeiro numa questão interessante que o psicanalista nos coloca: onde se encaixa esta dimensão de significação? Para formular a sua resposta, recorre à divisão cartesiana entre res cogitans e res extenso , ou seja, substância pensante e substância previa. Seria possível que o significante se situasse numa destas duas substâncias?

Em relação ao primeiro ponto, podemos supor que o significado não é longo, o significante não se aloja pura e simplesmente na razão, as coordenadas do Exterior se situam além dessa instância. O analista ao deitar não divã não e incitado a dizer a partir de sua racionalidade, mas a associar livremente. É por essa razão que conseguimos ler a cadeia que organiza o encontro do analista. Nas palavras de Lacan (2008b): "O sujeito não é aquele que pensa. O sujeito é, propriamente falando, aquele que enganamos, não, como dizemos, para encantá-lo, a dizer tudo - não se pode dizer tudo -, mas a dizer besteiras, isso é tudo." (p. 28)

Já a substância extensa se relaciona como espaço, especialmente com a impossibilidade de um objeto ocupar o mesmo lugar que outro, chamadas partes extras . Há uma delimitação segundo a qual um determinado objeto ocupa um espaço que não pode ser ocupado por outro objeto ao mesmo tempo. Aqui podemos pensar no corpo biológico como uma das exemplificações que podem ser enquadradas nesse registro; contudo, Lacan rejeita que seja nesse caso que possamos alocar o significante.

Para rever as duas substâncias cartesianas, Lacan (2008b) propõe uma terceira via em que “o significante se situa no nível da substância que goza” (p. 30). Isso a princípio parece dizer pouco, porém, no início do capítulo, Lacan cita o conceito de diz-mensão ( dimensões do dito ou morada do dito em francês). Lacan faz diversas menções ao corpo, portanto, rejeita a dimensão do corpo como partes extra partes .

Portanto , quando reitera sobre “gozar um corpo” está se referindo a um corpo significativo: “Isso só se goza por corporizá-lo de maneira significativa . (p. 29). É por meio da associação livre, de dizer as bobagens que o sujeito coloca um dito que envolve um outro jantar que se presentifica não ato da associação livre, a alegria. A proposta de Lacan é que, ao definir a palavra, fazendo funcionar a cadeia significante, toda a lógica estrutural do significante também se instale movimento.

A alegria surge como uma das derivações lógicas da cadeia significativa.


O gozo é esta propriedade fundamental do ser na soma ou corpo de uma pessoa que goza de uma parte do corpo do Outro. Mas esta parte também goza – aqui ela agrada mais ou menos ao Outro, mas é um fato que ela não pode ser indiferente. (...) gozar do corpo implica um genitivo que tem aquela nota sadiana que aumenta uma pincelada, ou, ao contrário, uma nota extática, subjetiva, que diz que se soma ao outro que goza. (Lacan, 2008b, p. 30)



Para que possamos elucidar melhor essa questão, podemos citar o filme mencionado por Ricardo Goldenberg (sd) para ilustrar esse conceito: “Almoço Nu” de Cronenberg, lançado em 1991. Em resumo, um escritor se dedica fervorosamente à sua máquina de escrever e então a máquina começa a exigir mais, transformando-se em um objeto antropomorfizado, vivo, que começa a gemer até atingir seu ápice e desfrutar.

Portanto, conseguimos delinear uma resposta para a pergunta inicial: o que será satisfeito? O escritor torna-se um suporte para a alegria da máquina de escrever, ele está ali para satisfazê-la. Outro, essa terceira instância, verdadeira referência e destino das mensagens, entra como protagonista daquilo que é satisfeito. O movimento do Outro que é satisfeito é uma das possíveis definições de alegria do Outro para Lacan.

Retornemos ao encontro inicial do seminário 11 e trilhemos o caminho da satisfação até algo, articulando que uma possível resposta é que a conclusão seja a de que se está satisfeito.

Então, podemos colocar a questão: e o sujeito? Você sofre passivamente as determinações externas? Voltemos à primeira citação da obra: “Eles não estão contentes com seu estado, mas estar nesse estado não é muito contentamento, eles também estão contentes.” (Lacan, 2008a, p. 158)

Uma determinação feita a partir do Outro não pode ser colocada mecanicamente, passivando ou submetendo-se e excluindo a lógica significativa. Lacan, para destacar um estado de contentamento com a satisfação do Outro, coloca o sujeito no jantar. Édipo ao blind e rejeitar seu ato nos oferece uma perspectiva interessante sobre a relação entre sujeitos e o Outro.

Nesse sentido, no seminário 8, Lacan (2010b) retoma o mito andrógino a partir da intervenção de Aristófanes em O Banquete. Segundo o mito, existiam três sexos, masculino, feminino e andrógino, que reuniam duas características principais, com quatro braços e quatro pernas, compondo uma esfera perfeita e completa. Devotado ao seu poder, ele desafiaria os deuses. Como punição, Zeus decidiu separá-los e os outros dois sexos tentariam reconstruir essa unidade com base no amor.

Lacan (2010b) critica diversas vezes como a figura da esfera e uma cosmologia elaborada em conjunto com a lógica que a sustenta constituem um horizonte neurótico de unidade. A à figura da esfera: "derrião o que é isto, o que eu exponho sobre esta forma ridícula, é precisamente a esfera. (...) Um certo número de pessoas, ou o Sr. Ehrenfels e outros, percebem que como as formas têm uma certa tendência à perfeição, isto não é um estado de dúvida, uma assimilação à esfera." (p. 117).

A esfera surge como uma topologia da unidade, porém, unidade de quê? Uma possível abordagem seria unir a cosmologia, supostamente arquitetada por um certo discurso. O que é contingente torna-se necessário. Diante, a ausência de um modo único de ser (ou a falta de ser), ou o que será contado como uma história, é uma das abordagens que se concretizam.

Portanto, a relação do neurótico com essa história implica tomá-la como a única forma possível de ser. Nas palavras de Lacan (2010b), “algo não está suficientemente claro para revelar o mecanismo de fascínio da forma esférica?” (p. 122). O neurótico tende a essencializar seu mito, torná-lo unitário ou, aproximando-nos de nossas elaborações aqui, esferificá-lo. Em termos algébricos, o analista tende a manter A enquanto A, desafiando a posição estrutural de ?.

Essa tendência à unidade não está contida no indivíduo em si, não constitui um tema isolado. Uma possível formulação final pode ser encontrada logo no início do trabalho, a partir da designação do seminário 11. Em determinado momento, há uma forte interação entre as determinações do Outro e o fato de o sujeito em questão buscar fortalecer essa unidade do Outro.

Para que o Outro não apareça logo após ser castrado e, assim, coloque o sujeito em uma posição indeterminada para o desenho da arquitetura unitária de A, é melhor que seja o sacrifício para proteger seus próprios olhos. Os analisantes repetem ou gesto edipiano. Muitas vezes observamos em uma clínica que o analista tem um impulso para se posicionar como objeto de suporte para o gozo do Outro. Para evitar a essencialização do Exterior, sua contingência e a rejeição de seu suposto poder de necessidade, há um movimento para que ele possa garantir repetidamente a harmonia do Exterior, mesmo que tenha que ser colocado em posições que são realizadas apesar de si mesmo. bem-estar.

Diante dessa conjunção, o desejo do analista surge como uma ferramenta essencial para que a análise não se petrifique em determinado ponto ou leitura. É necessário que ele seja sempre alertado para a suposta harmonia que os elementos de uma narrativa possuem entre si, coordenando-se de modo a manter a unidade do Outro; portanto, cabe ao analista estar atento a essa manobra neurótica e ser capaz de sustentar a dimensão desnecessária dessa narrativa, partindo da dimensão emasculada do Outro, que também não exige maior esforço. A partir dessa unidade, a análise é então relançada no campo negativo do desejo.

Um dos objetivos do analista é influenciar a economia do prazer do sujeito, destacando a dimensão ausente do futuro e possibilitando a construção de outros projetos. Ao inverso de sacrificar-se em prol da unidade, ou gesto do analista tem como alvo sacrifício uma tendência a sacrificar-se em prol da unidade.




Referências

GOLDENBERG, Ricardo. Algo gosta (e não sou eu). Algumas reflexões sobre a satisfação. Disponível em: https://ricardogoldenberg.com.br/artigo/algo-goza-em-mim-e-nao-sou-eu-algumas-reflexoes-sobre-a-satsifacao/ . Acesso em: 09/09/2026. s/d

LACAN, Jacques. Seminário, livro 2: o eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. 2ª edição . Rio de Janeiro: Zahar, 2010a.

LACAN, Jacques. Seminário, livro 8: uma transferência 2.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2010b.

LACAN, Jacques. Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. 2ª edição . Rio de Janeiro: Zahar, 2008a.

LACAN, Jacques. Seminário, livro 20: mais, agora. Rio de Janeiro: Zahar, 2008b.

ZUPANCIC, Alenka. Ética do real: Kant, Lacan. Buenos Aires: Prometeo books, 2010.


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