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Uma presença que sustenta a transferência, mas não a encarna

por Stefani Invernizze de Mesquita

Pensei em escrever sobre a transferência, porque por algum tempo, quando eu só estudava a psicanálise, mal tinha iniciado minha própria análise e estava longe de começar minha prática clínica, eu achei que ser psicanalista era sinônimo de se ausentar, isto é, agir quase como se não estivesse ali. Entendia o princípio da abstinência como uma recusa absoluta; aquela típica visão do analista sentado atrás do divã sem dizer uma só palavra. Mas não é disso que se trata e eu até entendi isso na teoria rápido o bastante – Freud diz em seu texto de 1912 “A Dinâmica da Transferência” que tratamento nenhum é possível in absentia ou in effigie, isto é, numa ausência total. No entanto, estou agora, no início da minha clínica, penando um pouco mais para entender na prática, no corpo mesmo.

Portanto, meu objetivo aqui hoje é compartilhar o que tem sido possível construir a partir dos meus estudos e da minha prática clínica: tenho pensado que é devido, sim, a uma posição abstinente do analista, que a transferência pode operar como motor da análise; mas a presença do analista importa, uma vez que a transferência passa pelo seu corpo. Eva Lerner, em seu livro “Objeto a: dobra do sujeito” diz: “Cada análise deve passar pelo corpo do analista, esvaziado de seu fantasma o máximo possível, mas não vazio de pulsões, para poder receber a transferência” (p.57). Então, que corpo é esse, esvaziado do fantasma mas não das pulsões? Como fazer operar esta presença que, estando ali, sustenta uma transferência, ao mesmo tempo que não a encarna? 

Estas perguntas vêm de uma só inquietação: é que me parece uma linha muito tênue esta que divide o “estar ali com o próprio corpo”, “suportar a transferência”, “fazer semblante de objeto a” e o “entrar na repetição significante” ou “ser o objeto”, isto é, encarnar a transferência. É, portanto, esta distinção que pretendo começar a investigar neste trabalho, sabendo que, como a própria Eva Lerner já adverte, é impossível indicar como fazer isso sem cair no risco de nos separarmos da singularidade do caso a caso. Pretendo então ao menos construir algum direcionamento para esta minha questão. Para isso, começo pensando no conceito de desejo do analista, que Lacan, como lembra Rabinovich em seu livro “O desejo do psicanalista – liberdade e determinação em psicanálise”, define como o desejo da diferença absoluta. Com isso, entendo que ele está, então, no centro de uma possível resposta para minha pergunta.

O que é esta diferença absoluta? Acredito que Freud já começa a responder, naquele mesmo texto de 1912, quando diz “[o paciente] quer acionar as suas paixões sem levar em consideração a situação real. O médico quer levá-lo a inserir essas moções emocionais no contexto do tratamento e no de sua história de vida, subordiná-las à observação pensante e reconhecê-las em seu valor psíquico”.  Entendo, então, que a diferença absoluta está aí: em propor uma outra saída, um corte na repetição que a transferência atualiza.

Aqui entra, entendo, a ética da psicanálise: é porque não se quer o Bem (absoluto, universal) do analisante, que se pode sustentar uma presença marcada por esta diferença absoluta. Pommier, em seu livro “O amor ao avesso” diz que


não é nem para a questão do bem nem para a do mal que a atenção inicialmente se dirige, mas para a do querer o que quer que seja em lugar de seus analisantes. Estes últimos já não viram muito estes doadores de ordens e conselhos higiênicos?  (p. 139)

Ocorrem-me os casos de duas pacientes, que começaram os seus tratamentos quase ao mesmo tempo e foram embora também quase ao mesmo tempo, cerca de dois meses depois. E as duas pelo mesmo motivo: elas queriam respostas. E aí estava a minha dificuldade: eu não as tinha, mas como eu deveria comunicar isso a elas, sem, no entanto, que isso rompesse com o tratamento, como aconteceu? Como sustentar uma não-resposta diante de um pedido tão direto, sem quebrar a possibilidade de que ali se inicie uma análise? Porque sim, se eu sugerisse qualquer resposta, estaria entrando na série destes “doadores de ordens e conselhos higiênicos”, isto é, estaria entrando com meu ser e Lacan, em “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”, argumenta que o analista situa-se em sua falta-a-ser (p. 596). Mas como então fazer se abrir uma possibilidade de entrada em análise, a partir desta falta-a-ser, desta não-resposta?

Sigo com Lacan, quando ele diz


simplesmente tomo o caminho de ouvir, não de auscultar [...] a resistência, a tensão, o opistótono, a palidez, a descarga de adrenalina em que se reconstituiria um Eu mais forte: o que escuto é por ouvir. Ouvir não me força a compreender [...] Naquilo que ouço, sem dúvida, nada tenho a replicar, se nada compreendo disso ou se, ao compreender algo, tenho certeza de estar enganado. Isso não me impediria de responder. É o que se faz, fora da análise, em casos similares. Eu me calo. (p. 623)

Ao falar assim, Lacan marca a diferença absoluta, radical, que se produz numa análise, mas mostra também que a presença começa a se constituir aí: na escuta. Na escuta sem nada querer em particular; é, portanto, uma presença que se produz artificialmente na clínica e que se funda, sim, numa ausência.

Nestes casos em que atendi, por exemplo, havia outras questões, da minha parte, que os atravessavam: uma impaciência e até certa raiva durante os atendimentos. E foi isso, entendo, que me impossibilitou de sustentar uma posição de analista: naqueles casos, eu estava ali demais, e aí está o meandro da coisa; a dificuldade da psicanálise: é por eu não ter conseguido sustentar a ausência, que não pude fazer operar uma presença. Mas, volto então a perguntar, como sustentar essa ausência?

Recorro, novamente, à Eva Lerner, que diz


Quem abandonaria a única coisa que é na vida em troca de nada? Salvo se esse nada funde, já desde o começo de um tratamento, a precária mas prometida fundação do que será um novo lugar mais propício a uma posição desejante, ainda que só se saiba depois se isso foi alcançado. (p. 184)

Assim, entendo que é necessária uma promessa de fundação deste novo lugar, propondo uma presença que a mantenha como quem diz “vamos encontrar a resposta juntos” ainda que se saiba que é o próprio sujeito quem produzirá uma resposta durante o tratamento. E a ausência se sustenta na medida em que sabemos que não se trata de uma recusa absoluta. O analista não oferece conselhos higiênicos, não responde à demanda, não entra com seu ser. Mas tudo isso é para que se possa oferecer o mais importante: sua escuta. E é ela, diz Lacan, que implicará em sua presença, capaz de sustentar a demanda sem respondê-la “não para frustrar o sujeito, mas para que reapareçam os significantes em que sua frustração está retida” (p. 625). Assim, torna-se possível suscitar uma curiosidade, uma questão, que aceita não ter resposta, na medida em que se possa chegar a ela em algum momento.

É o que Eva Lerner diz, ao afirmar que o analista acompanha a entrada no discurso daquele que o procura, fazendo algo que o convença da experiência inconsciente, fundando, assim, a transferência, que servirá como a base onde se funda uma possibilidade de produzir algo novo. A partir disso, entendo que a posição abstinente por si só não basta para garantir que haja uma entrada em análise; é necessário que se produza ativamente uma aposta no inconsciente. Indo ao encontro disso, Rabinovich adverte que a formulação de Lacan de que o analista deve fingir esquecer que é a causa do processo de análise é irônica, na medida em que se deve fingir esquecer o que, para ocupar dignamente a posição de psicanalista, não se pode, em absoluto, esquecer. Ao analista, ela diz, cabe ser objeto em posição de causa de desejo no processo de análise, o que culminará no desvelamento desta causa como vazio, cuja importância não deve ser menosprezada, uma vez que é por este vazio que se permite o surgimento do objeto a. Portanto, o psicanalista deve, seguindo com Rabinovich, oferecer um vazio, para que o desejo do paciente “se realize enquanto desejo do Outro através desse instrumento para sua realização que é o analista enquanto tal” (p. 14).

Daí vem, entendo, a ideia de fazer semblante de objeto a como causa do processo analítico. Eva Lerner aponta para a transferência como a articulação fundamental para que o analista seja suporte do objeto a, visto que se trata de receber em nosso corpo pulsional o que se transfere do objeto, dando-lhe lugar com nosso ato, sem nos horrorizarmos. Ela diz que “alojar e sustentar o objeto no semblante é a oportunidade para o analisante poder receber a própria mensagem de maneira invertida e, assim, conseguir retificar a posição na qual ficou fixado” (p. 207) e segue dizendo que devemos emprestar nosso corpo para receber a transferência do fantasma do analisante a partir de um lugar de quem lhe transfere um vazio.

Entendo então que além da escuta, oferecemos também, e principalmente, este vazio, através do qual podemos suportar, com nosso próprio corpo, isso que nos é transferido do objeto. Para isso, é necessário, como diz Eva Lerner, nos enlamearmos na clínica, e passarmos pelo esforço de inventar, a cada caso e a cada dia, uma forma de fazer falar o objeto a, e poder lê-lo em nossa práxis. Finalizo este texto com a sensação de que é preciso mesmo desejo e certa dose de coragem, para “ocupar dignamente a posição de psicanalista”. Desejo e coragem para não nos acovardarmos diante da trabalheira que dá este nosso ofício: mergulhar nos estudos, nos enlamearmos na clínica e produzirmos ativamente em nossos analisantes uma aposta no inconsciente. Encerro agradecendo à Zeila pela proposta de fazermos este evento, e à ALPL por me ajudar a sustentar tanto o desejo quanto a coragem.



REFERÊNCIAS

FREUD, S. A dinâmica da transferência (1912). In: FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 10: observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O caso Schreber”), artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 133-146.

LACAN, J. A direção do tratamento e os princípios de seu poder (1958). In: LACAN, J. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 591-652.

LERNER, E. Objeto a: dobra do sujeito. Tradução de Leonardo Coutinho Rodrigues. São Paulo: Sinthoma, 2024

POMMIER, G. O amor ao avesso: ensaio sobre a transferência em psicanálise. Tradução de Sandra Regina Felgueiras. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1998

RABINOVICH, D. S. O desejo do psicanalista: liberdade e determinação em psicanálise. Tradução de Paloma 

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