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Jornadinha Mais Diálogos

Angústia e o desejo do analista

por Zeila Torezan

Em um dos nossos encontros, alguma passagem do livro O desejo do analista, de Diana Rabinovich (2000), suscitou uma conversa sobre o conceito de angústia na clínica, em especial sobre seu manejo. Depois, a conversa rumou para as angústias dos participantes no exercício da função analista. Na verdade, este ponto de deriva é um dos norteadores de nossas discussões, afinal este grupo de trabalho tem como objetivo principal ser um espaço para compartilharmos e buscarmos trabalhar teoricamente as dificuldades de nossa prática.

Portanto, meu tema surgiu desta conversa sobre a angústia e seu manejo na clínica e de sua deriva a respeito da angústia do analista em sua função. Na discussão que tivemos no encontro, surgiram questões como: uma análise deve causar angústia? O analista provoca a angústia? E, pelo lado do próprio analista, apareceu algo assim: como lidar com a angústia que é suscitada no exercício da função analista? Questões fundamentais, a partir das quais vou traçar alguns comentários, neste pequeno trabalho.

Uma passagem de Lacan, no seminário A angústia (Lacan, 2005) me parece muito interessante para este recorte de hoje:



 Sentir o que o sujeito pode suportar de angústia os põe à prova, todo instante. Logo, é preciso supor que, pelo menos para aqueles que são formados pela técnica, a coisa acabou passando para sua regulação, e quase despercebida, convém dizer. Mas, quando o analista inicia sua prática, não é impossível, graças a Deus, que, por mais que apresente ótima disposição para ser analista, ele sinta, desde suas primeiras relações com o doente no divã, uma certa angústia... Essa angústia, que, segundo parece, vocês sabem regular e tamponar tão bem em si mesmos a ponto de ela os guiar, será que é a mesma do paciente? Por que não? (p.13)



E, do seminário O avesso da psicanálise (Lacan, 1992) extraio a seguinte frase: “... não há razão para que uma psicanálise cause angústia” (p. 172).

Percebem como os dois pontos, de nossa conversa naquele dia, estão articulados nestas citações? O analista é posto à prova, o tempo todo, na avaliação do quantum de angústia que pode ser suportado pelo analisante e, mesmo havendo muita disposição para a tarefa, a prática pode ser angustiante para o analista. E, ainda, não há razão para que uma psicanálise cause angústia. Então, é tarefa do analista avaliar, mensurar o nível de angústia suportável pelo analisante, tarefa nada fácil, que põe o analista à prova e pode angustiá-lo. Por outro lado, Lacan indica que uma certa angústia sentida pelo analista em sua prática é mesmo desejável. E, por que isso é desejável?

Sabemos que angústia está na origem e na estrutura do conceito de sujeito e, assim, se articula ao objeto a e ao desejo do Outro. Também sabemos que ela está no horizonte da clínica psicanalítica, está associada à estrutura do dispositivo analítico. E, ainda, a angústia é um afeto muito particular, aquele que não engana. No que tange ao trabalho analítico, a angústia é, além de particular, um afeto paradoxal, na mesma direção que é paradoxal a transferência, ou seja, a angústia é tanto condição quanto obstáculo para a análise.

Condição e obstáculo, por ser um afeto puro e não enganador, sinal de que o sujeito está se deparando com as questões essenciais à análise: o objeto a e o desejo do Outro, o que não é nada fácil. Por isso dizemos comumente que sem angústia, não há análise. Condição e obstáculo, pois o dispositivo analítico tem por estrutura um funcionamento que convoca a angústia. A simples presença do analista já é suficiente para que o analisante o coloque no lugar do Outro que deseja e deseja algo além do que diz, algo que não se sabe bem o que é. Por mais cuidadosos que sejamos com a nossa posição, isso é inexorável, inevitável, a presença do analista convoca a angústia. Além disso, o analista é o suporte das projeções dos objetos a que compõem o fantasma de seus analisantes. A esse respeito, Lacan (2005) observou que a estrutura da angústia é a mesma do fantasma (14/11/62), com a diferença de que na angústia o a está sem a cobertura imaginária do fantasma. Bem, o trabalho de análise vai desvestindo o a, esse nada, oco, vazio que provoca a angústia. Por fim, a regra mais básica, falar em associação livre, se levada seriamente, convoca a angústia: primeiro porque é mesmo muito esquisito falar desta maneira, procurando deixar a racionalidade e a censura de lado; segundo, porque convida o sujeito a avançar nas questões essenciais à análise e atreladas à angústia, como já enfatizei, o objeto a e o desejo do Outro. Assim, a estrutura do dispositivo analítico provoca, no sentido de favorecer e não de criar, a angústia, o que é necessário, condição para o trabalho, mas também pode fazer obstáculo.

Insisto, nem o analista, nem a análise são máquinas geradoras de angústia, não se trata de induzir propositalmente a angústia no trabalho analítico. Portanto, não procede a ideia de procurarmos “boas” intervenções que provoquem a angústia, a estrutura do dispositivo já se encarrega disso e, se somos demandados no lugar de analistas, zelaremos para que a estrutura opere adequadamente e isso implica no favorecimento da angústia.

O que pode acontecer é que a angústia não seja bem dosada, que não passemos bem na prova de avaliar o quantum de angústia suportável pelo analisante. Aqui volto na questão que deixei acima: por que é desejável que o analista sinta alguma angústia em sua prática? Acho que uma das respostas é: para passar bem na prova. Não há analista de fora do dispositivo, participamos da montagem do quadro clínico que se arma em transferência. Se participamos do inconsciente, do fantasma, do sintoma que se escrevem em análise, como estar imune à angústia, peça chave da estrutura do trabalho analítico, como estou procurando lhes indicar? Isso não equivale a dizer que vamos manejar esse afeto na transferência, que vamos ler a angústia experienciada em nossa tarefa como contratransferência e nos usarmos disso na direção da cura. A transferência é dialética e envolve analista e analisante, o conceito lacaniano do operador do desejo do analista transcende, torna desnecessário, o conceito freudiano de contratransferência. A angústia experienciada pelo analista em sua tarefa deve ser tomada como sinal, sinal de algo na transferência que é necessário escutar, sinal que nos coloca à prova para a dosagem da angústia, sinal para cuidarmos do bom funcionamento do operador do desejo do analista.

Então, quando o analista ocupa e opera desde o seu lugar para zelar pelo bom funcionamento do dispositivo, já está cuidando da angústia como condição para o trabalho. Além disso, o que ele pode e deve fazer é operar de forma a buscar amenizar a angústia, quando avaliar que está em um nível insuportável. Assim, é mero imaginário, fantasia, a ideia, propagada por aí e manifestada por alguns analisantes ou mesmo em círculos socias, de que o analista deve intervir “pegando pesado ou jogando duro”, na direção de “produzir” a angústia necessária ao movimento da análise. Se vocês me acompanharam até aqui, já perceberam que isso não tem nenhum fundamento, é puro imaginário. Na verdade, se ocuparmos tal posição, não há chance de haver analista e, portanto, não há análise. O que há numa circunstância dessas é gozo e não movimento pela angústia e isso obstaculiza e não movimenta o trabalho. E, companheira frequente do gozo, haverá culpa. Esse afeto sim, a culpa, pode ser muito bem induzido por esse tipo de postura, ou melhor, de impostura. A culpa pode ser produzida por intervenções do analista, pois o supereu nunca deixa a desejar quando é convocado, sabemos bem disso.

O analista deve ser preciso em suas intervenções, em seus cortes e costuras, e precisão, ao contrário de violência ou brutalidade, exige delicadeza e uma firmeza que advém da tranquilidade do lugar que se ocupa, uma precisão cirúrgica. O que não impede que o analisante vivencie as intervenções de uma forma dura, que elas o toquem de maneira dolorida, afinal, falamos de feridas em análise, não é mesmo sem dor. Mas, isso é muito diferente de o analista ter o propósito de infligir dor em nome de uma suposta técnica e/ou como resposta à demanda, até bem comum, de alguns analisantes: “bata-me”. Não, com a psicanálise não se trata de resolver as coisas na porrada. Isso é só mais uma ilusão para continuarmos adormecidos no gozo e, como analistas, devemos estar bem advertidos disso.

Relembrando que estou tratando do paradoxal da angústia como possibilidade e como obstáculo para a análise e acabo de indicar que obstáculo pode se produzir exatamente se a angústia for insuportável, se o analista não passar bem na prova de dosá-la e, se ele for tomado pela angústia, ao invés de apenas usá-la como sinal. E obstáculo pode significar desde pequenos impasses ao trabalho (dificuldades na fala, nas associações...) até uma passagem ao ato. E como podemos medir isso? É claro que não temos parâmetros que se generalizem para todos e nem se trata de pensar no estabelecimento de um quantum ideal de angústia, mas as dificuldades acima citadas podem servir de sinal, de alerta de que o nível de angústia não está suportável.

O manejo para a amenização da angústia é simples, o que não quer dizer banal. O mais importante é nunca esquecer o óbvio de que escutamos o sujeito do inconsciente e não falamos com o indivíduo sobre o seu inconsciente, isso significa escutar atentamente e colocar em trabalho qualquer pedido/demanda/movimento que nos chegue em transferência. Pedidos de mudanças de horário, de sessões a mais ou a menos, de mudança no valor, de interrupção do trabalho, faltas, mudanças bruscas no ritmo da fala e das associações, etc... Colocar em trabalho, fazer falar essas demandas/movimentos para intervir, para tomar a decisão de como operar, sempre ancorados em uma ética e não ao acaso, por meras regras técnicas ou, muito menos, por um “jeito de ser”.  Em algumas situações, recorrer a intervenções que comportem o chiste ou que tenham um caráter organizador, são bem favoráveis à amenização da angústia por tirarem o sujeito de uma espécie de vórtice de angústia e ou de culpabilização. Outras vezes, sempre a partir do que escutamos no que fazemos trabalhar, reafirmar os limites que dão um bom contorno e legalizam o contexto transferencial é essencial. Ainda, em outros momentos, podemos recorrer a intervenções muito simples como: um forte aperto de mão ou um beijo de cumprimento quando solicitados, a oferta de um lenço, uma pergunta se trouxe guarda-chuva, dizer “até a próxima”, o cuidado com o os horários, com a pontualidade... Sempre dentro de um contexto do trabalho e, enfatizo, não se trata de uma simples questão técnica e, muito menos, de mera amabilidade ou acolhimento, até porque, muitas vezes é uma recusa, um limite ou uma afirmação um tanto dura que fará a função desejada.

Temos relatos de analisantes de Lacan, como os do livro Quartier Lacan (Didier-Weil, 2007), de que ele usava exaustivamente esses recursos. Lembro agora de um relato no qual ele põe a mão no casaco da pessoa na saída da sessão e diz de uma forma muito amorosa: “esse casaco é muito fino para o clima que estamos meu caro, assim você vai se resfriar!” Em outro relato ele telefona para a analisante que já faltara a seguidas sessões e diz: “minha querida, quando voltarei a vê-la?” Uma coluna de Contardo Caligaris na Folha de São Paulo (3/4/2020) trouxe mais um desses exemplos: uma amiga o encontrou no café onde os analisantes e supervisionandos de Lacan se reuniam depois ou entre as sessões, ela chegou absolutamente transtornada e angustiada, ficou ali paralisada por uns minutos e levantou-se dizendo que precisava falar com Lacan novamente. Depois de algum tempo, ela retorna sorrindo, aliviada, balançando a cabeça e lhe contou: “tive uma sessão sobre os desejos mais duvidosos que pairavam sobre o meu berço; descobri que sou filha de uma farsa sinistra. Enfim, saí da sessão péssima. Voltei para dizer a Lacan: com a história que lhe contei, fico com a impressão de que estou fodida. E aí ele me disse: Mas, minha querida, não é apenas uma impressão: com a história que é a sua, você está mesmo fodida”.

Para ir finalizando, mais uma pequena passagem de Lacan (2005) no seminário A angustia, em um momento em que trabalhava sobre o acting out: “Em seus referenciais clínicos, observem a que ponto segurar pela mão para não os deixar cair é absolutamente essencial num certo tipo de relações de sujeito.” (p.136).

É isso, a angústia está na estrutura do conceito de sujeito e participa da estrutura do dispositivo analítico, não há como escapar. Só encarando esse fato podemos trabalhar de forma favorável, e reconhecê-lo implica considerar que não temos alternativa a não ser seguir fielmente esses dois ensinamentos de Lacan: estarmos advertidos do desafio constante de avaliarmos o nível de angústia possível a cada um e a cada momento e criarmos intervenções precisas e eficazes que sirvam como suporte para a dosagem da angústia, como uma mão estendida para não os deixar cair. E também o analista precisa de mãos estendidas para lidar com o que o afeta em sua função, para lidar com a angústia experienciada no exercício da função analista. O que fazemos no dispositivo Mais Diálogos é uma mão estendida, o que fazemos hoje aqui com vocês, também. Esta é, ainda, a função da análise pessoal do analista, do trabalho de supervisão ou da análise de controle e, também é o trabalho e função de uma escola de psicanálise.



Zeila Facci Torezan




 

Referências



Didier-Weil; Weiss e Gravas. Quartier Lacan: testemunhos. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007.

Lacan, J. O Seminário, livro 10: a angústia (1962-63). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.

Lacan, J. Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise (1969-70). Rio de Janeiro: Zahar, 1992.

Rabinovich, D. O desejo do psicanalista: determinação e liberdade em psicanálise. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2000.

 

 

 

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