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Textos Jornadas ALPL

ESTRUTURA: CLÍNICA E TOPOLOGIA

por Mônica Fujimura Leite

Gostaria de agradecer aos colegas da ALPL, que trilharam comigo, ao longo destes dois anos, o estudo do seminário 13 de Lacan. Além dele, outros estudos e discussões fomentaram as questões que a clínica tem me despertado no momento. Acredito que a minha questão acompanha o avanço que tenho realizado, junto com os colegas, pelos seminários e escritos do Lacan. E o meu título, tanto do Fórum da ALPL que apresentei no ano passado, quanto o da jornada o ilustram.

Estrutura: ao longo de tempo um tempo já, tenho me visto reiteradamente às voltas com este conceito, e me vejo, ora pendendo para sua origem: as estruturas clínicas, que Lacan herda de Freud, e ora para a estrutura da linguagem, falta fundamental do humano, e que me aproxima da topologia. Estes dois anos, foram os que mais estudei topologia.

No trabalho do passado eu trouxe várias figuras que desenhei, recortei e dobrei ao longo deste percurso, me dando conta da serventia da topologia para compreender as intervenções do analista na estrutura. À época, de forma resumida, encontrei na letra de Lígia Victora (2016) uma confirmação de que, a partir dos cortes que o analista opera em suas intervenções, é possível causar modificações na estrutura, conforme Lacan demonstra na transformação do toro em banda de moebius.

O toro é uma superfície topológica de duas faces, cuja imersão no espaço se assemelha a uma câmara de pneu.  (figura1).

Figura 1 – toro

Já a banda de moebius é uma figura com uma só face, direito e avesso em continuidade. (figura 2).


Figura 2: banda de moebius

Porém, posteriormente, no avanço do estudo do seminário 13 (1965-66) (p. 164), pelo que pude apreender, Lacan não conseguiu chegar a esta demonstração, ao cortar o toro, na forma de 8 interior, se chega a uma fita de dupla face torcida (figura 3).[1]


Figura 3: fita torcida

Zeila, colega da ALPL, na ocasião, me apontou o trabalho de Clara Cruglack (2001), “A Clínica da Identificação”, para prosseguir com minha questão. Desacomodada de minha resposta, fui retomar tal escrito, onde ela traz que Lacan coloca a intrusão da linguagem como um trauma, que parasita o sujeito. Ela também retorna às origens – da constituição subjetiva e da Psicanálise – e desenvolve ao longo de seu livro o processo de identificação, a partir da incorporação da língua materna. [2]

Cruglack  (2001) desdobra a identificação em três tempos, que se relacionam à identificação ao pai, ao traço unário e ao sintoma. Como minha questão gira em torno das origens, me aterei à primeira, que inaugura o processo.

Ela retorna à Freud (1913-14) (em Totem e Tabu), onde ele trata do banquete totêmico (no mito, em dado momento, os irmãos se unem para matar o pai e o devoram, a fim de incorporar sua força, e usufruir das fêmeas do grupo, que eram exclusivas do pai). De acordo com Freud (1921), a identificação (em Psicologia das Massas e Análise do Eu) refere-se à primeira forma de ligação libidinal, anterior à escolha de objeto, e se refere a uma aspiração a tomar a forma do outro, tomando-o como modelo.

Em seguida, ao retomar a leitura que Lacan faz do texto freudiano (em RSI), diz que este processo de incorporação é o de um vazio, que determina a estrutura do sujeito. Porém não é tão fácil associar a incorporação da linguagem com o vazio. Para prosseguir, retomei o que já estudara sobre o autismo, e me reencontrei com a escrita de Inês Catão (2011 e 2015) acerca da voz, enquanto objeto pulsional. Na Psicanálise, voz não é o mesmo que som, seria o que se subtrai da significação.

Clara Cruglack (2001) nos ajuda a compreender, quando retorna ao conceito de lekton, que Lacan traz dos estóicos (retomo aqui o que estudamos no eixo sobre “Corpo e Sintoma”, em que estudamos o seminário 24, no ano de 2019). Lekton seria o dito, ou o que pode se expressar, e é composto por dois elementos: a palavra enquanto som e o objeto. O som conjuga a fonação com a voz, e a voz ressoa em um vazio, o vazio do desejo do Outro.

Catão nos diz que a voz é o primeiro objeto pulsional a se constituir e é o articulador da incorporação da linguagem. O bebê escuta desde o quinto mês de gestação. Lacan, no seminário 9 (que estudamos em cartel ao longo destes dois anos), traz que a marca que se funda a partir da voz se transforma em traços, que sofrem um apagamento, e
cujos vestígios se organizam enquanto significantes.

A voz possui uma função de enunciação e endereçamento. O que ela enuncia e endereça? O desejo do Outro para com o sujeito. Nas palavras da autora: “A voz do Outro que o bebê
escuta naquilo que ele ouve é portadora de seu desejo, da marca de sua falta. É naquilo que o Outro não diz que o bebê encontra o seu lugar”  (
CATÃO e VIVÈS, 2011, p. 85).

Sabemos, com Lacan, que o desejo do Outro não possui objeto, ou seja, é aí, neste vazio, que o bebê se acomoda, mas não preenche. A intrusão da linguagem no vivente o separa da possibilidade de um gozo de complementação entre sujeito e objeto – como nos animais.

Catão (2011 e 2015) ainda traz que Laznik faz a hipótese de que a voz é o primeiro objeto da pulsão oral, pois ela interessa ao bebê antes de qualquer satisfação da necessidade
alimentar. Penso que seja possível articular a hipótese de Laznick com o q Freud fala sobre a incorporação paterna, através do banquete totêmico, de um traço paterno (a força), da primeira identificação. Podemos pensar na pulsão enquanto conceito freudiano, que subverte as funções corporais da necessidade ao dom de amor, na relação do infante com o Ouro primordial.

Retornando à Lacan, no Seminário 10 (1962-63) (que estudamos em cartel com colegas da ALPL em 2020 e foi tema do eixo de 2021) ele diz que a identificação primordial opera pela incorporação da voz do Outro: “A voz, portanto, não é assimilada, mas incorporada. É isso que pode conferir-lhe uma função que serve de modelo para nosso vazio” (LACAN, 1962-63/2005, p.301). E no seminário anterior, sobre a Identificação (1961-62), ele introduz a figura topológica do toro para trabalhar este tema.

A primeira vez que tive contato com o toro foi no ano em que estudamos sobre Corpo e Sintoma (2019) em que Lacan traz, no seminário 24 (LACAN, 1976), que o corpo é tórico. Retomo minhas elaborações de então. Naquele seminário, Lacan relaciona esse furo com a intrusão que a linguagem faz no corpo do vivente.

O corpo é construído a partir do atravessamento da linguagem. No seminário 11, Lacan (1964/1998), coloca que um infante escolhe forçosamente, se alienar ao campo do Outro, chamado de sentido, tendo que para isso, abrir mão de seu ser. Isso implica em entrar na linguagem, submetendo-se à trama discursiva, humanizar-se, o que implica, por outro lado, em perder gozo. De acordo com Lacan: “tudo surge na estrutura do significante. Essa estrutura se funda no que primeiro chamei a função do corte, e que se articula agora, no desenvolvimento de meu discurso, como função topológica da borda”
(LACAN, 1964/1998, p. 196). Uma borda possibilita diferenciar um dentro e um fora. Posteriormente, no seminário 24 (
LACAN, 1976, p. 12-13), ao introduzir a figura do toro, ele relativiza essa questão de interior x exterior. Ele demonstra isso ao fazer cortes na figura topológica e revirá-la, de modo que a parte que era externa passa para dentro e a interna vai para fora, formando a figura que ele chama de trique (figura 4). Lacan diz nesse momento que essa figura “representa o corpo” (LACAN, 1976, p. 28).[3]

Cruglack (2001) propõe, a partir de Lacan que o corte e reviramento do toro seria o corpo após o atravessamento da linguagem. O corte seria justamente esta operação de atravessamento, e é o que possibilita toda a operação de reviramento. Nesta manobra, o que era dentro passa para fora.


Figura 4 – toro revirado - trique

Sem me alongar muito, o importante a se destacar é que o furo central permanece. Ainda segundo a psicanalista, o que se incorpora é a falta do Outro, no assassinato do pai, o que é expulso (posto fora) é o gozo ilimitado do pai, gozo absoluto, instauração da castração.

Para concluir, ela por fim, diz que o modo como se realiza esta identificação primária determinará as relações dos elementos da estrutura subjetiva e a possibilidade de o sujeito se servir destes. Ela então segue discorrendo sobre as implicações estruturais de o toro se revirar a partir de um corte ou um furo. Mas não a seguirei neste encalço.

Eis aqui outra resposta, porém, ainda aí não me acomodei, pois não pude alcançar os desdobramentos disso na minha prática clínica. Por fim, ao estudar este ano no Seminário de Fundamentos da ALPL sobre diferentes manifestações clínicas (melancolias, adições e transtornos alimentares, reencontrei o conceito de fantasma.

Aqui, consegui me assentar, por ora, para pensar a amarração da estrutura com os fenômenos clínicos. Assim, neste trabalho, re - tomo da teoria os conceitos de falta estrutural e fantasma, e tentarei fazer uma articulação com a topologia, que Lacan utiliza neste seminário para tratar deste conceito.

Ao passar a fazer uso da topologia, Soler (2020) nos conta que Lacan não fez um corte, mas propôs uma continuidade e uma transladação de uma forma de escritura (do significante) para a outra. Pelo que pude apreender de meus estudos e discussões com os colegas, esta passagem que Lacan faz foi uma tentativa de inscrever o Real em sua teoria.

Quanto a mim, em meu percurso clínico – e de análise pessoal –  segui este mesmo caminho. Como já situei no fórum, aprendi a classificar meus pacientes, em torno do Nome do Pai, e a partir daí a lógica fálica. Isso me serviu por um tempo, até que, a variedade nas manifestações deste sujeito que se apresentavam em minha escuta na clínica, no trabalho com a Psicanálise começou a não mais ser comportada nesta forma de ler a teoria. Lembro – me que, dando aula na faculdade, comecei a ficar muito incomodada em precisar categorias estanques que não correspondiam mais ao que eu via acontecer no meu dia a dia.

Atualmente tenho me acomodado melhor à ideia que ouço de que devemos ler o modo como o paciente se acomodou com os três registros (R,S,I). São falas da transmissão dos colegas e mestres do Espaço Moebius, da Sandra, minha supervisora, do Leonardo Danziato, da Gláucia Nagem, enfim psicanalistas que já trabalham em suas cínicas com o nó borromeu. Quanto a mim, apesar de passear por estas terras, não tenho aprofundamento teórico suficiente para me dizer com os dois pés neste continente.

Por ora, sendo este trabalho a conclusão destes dois anos de estudo e prática, o que pude recolher de tudo o que trabalhei foi o buraco central que compõe este enodamento. E é aqui que entra a figura topológica do toro, que me ajudou tanto neste processo.

Conforme já citei acima, Lacan introduz esta figura no Seminário 9 (1961-1962), e no seminário 13 (1965-55), ele o retoma e destaca a escolha da figura por conta deste buraco que ele chama de “irredutível”. Lacan diz que o furo tem uma função essencial no funcionamento da linguagem (“ordem simbólica”)[4]. O furo causa, e faz o homem trabalhar para dar conta disso.

Retornando a minha questão inicial, ao longo do trabalho articulei que: a estrutura seria a da linguagem, e esta promove um sujeito furado, tórico. As manifestações clínicas seriam mostras do que cada sujeito fez/está fazendo com isso. Na lição 3 do Seminário 13 (LACAN, 1965-55, p. 61), Lacan nos aponta uma direção neste sentido, quando diz que pode haver formas estruturais diferentes, a partir desta falta constitutiva do sujeito.

 Após esta primeira inscrição, o sujeito humano irá, singularmente, criar formas de lidar com essa perda de gozo, tentando recuperá-la. Em sua relação com o Outro, ele se aliena, ao significante desejo da mãe, e a ser seu objeto de gozo. Em contrapartida, não o satura completamente, e então coloca a pergunta: podes me perder? A este processo, Lacan chamou de Fantasma, e Lacan o trabalha a partir das figuras topológicas no seminário 13.

Sobre o fantasma, no ano de 2017 este foi o tema de nosso estudo. À época desenvolvi que: ao pedir reconhecimento de seu ser ao Outro, não o encontra. No seminário 6 Lacan diz que o Outro não tem um significante que autentique e garanta a sequência de significantes (p. 400), e que neste momento aparece o S/ (barrado), separado de seu objeto de desejo. Ao estudar o seminário 10, sobre a Angústia, com o grupo no eixo temático de (2021) e em cartel, em 2020, com alguns colegas da ALPL, extraí que o sujeito, por um lado, aliena-se à imagem que o Outro oferece ao sujeito, porém esta não o recobre por completo, e é disso que escapa que o sujeito recolhe material para se perguntar. Seguindo este raciocínio, Tsyler (2014, p. 31) coloca que a escolha do sujeito (enquanto suposto objeto que completa o Outro) é a resposta que ele dá à pergunta “O que o Outro quer de mim?”.

Agora no seminário 13, (1965-66) na lição 13 (p. 321), dando continuidade à formalização do fantasma, ele retoma a figura do toro, reforçando em sua descrição, a presença do furo irredutível da figura e de este se estabelecer a partir do traçado de duas voltas distintas, o d em torno do furo central e o D que gira no entorno, ultrapassando-o. (figura 5)


Figura 5 – voltas da Demanda e do Desejo

 Depois, fazendo referência ao seminário 9, ele traz nesta figura, a dinâmica entre a Demanda e o desejo, na relação do sujeito com o Outro. Ele diz que as voltas em forma de espiral no entorno do corpo do toro são o que ele chama de Demanda. E o buraco central que se forma destas voltas reiteradas seria o desejo[5]. (LACAN, 1961-1962, p. 316). Na lição 6, Lacan ressalta que é necessário dar a volta em torno do buraco central para que se defina a estrutura do toro.

Por outro lado, podemos pensar cada volta também na questão que desenvolvo aqui, das reinscrições dos conceitos para mim: a cada encontro ao acaso com estes objetos-conceitos, algo de novo se inscreve. Uma vez me falaram da figura da espiral (e eu acho que foi quando estudamos sobre a Repetição, tema do eixo do ano de 2016), que fez para mim muito sentido: é um retorno ao mesmo lugar, mas diferente.

Voltando à Lacan, uma vez que ele usa a banda de moebius para tratar disso, uma figura topológica que traz uma continuidade interior/exterior, e considerando que esta relação sujeito-outro implica o Outro, articulo com o enlaçamento dos toros que Lacan traz no seminário 9, ao tratar da demanda e o desejo. A partir dos estudos e discussões com as colegas de cartel, do referido seminário, hoje penso o desejo do sujeito como uma resposta à demanda do Outro.

Na lição 13 do seminário 13 (LACAN, 1965-66, p. 307), ele traz a figura de dois toros entrelaçados, um passando pelo buraco do outro, mas não desenvolve e não nomeia o sujeito e o Outro. Retornando ao seminário 9 (LACAN, 1961-1962, p. 349), Lacan diz que um toro seria o sujeito e o outro seria o Outro. (figura 6)


Figura 6 – toros entrelaçados

                                                                                                                                                                                                                          

Ainda para tratar do fantasma, avançando em seus estudos, ainda no seminário 13, na lição 3, Lacan introduz uma outra figura topológica, o cross cap (fig 7.)

Figura 7 – cross cap

Ao cortar o cross cap em forma de oito interior, surgem duas figuras: a banda de moebius -  que seria o sujeito - e um cone - que seria o objeto a. (fig.7).  Nas palavras de Lacan (1965-66, p. 64): “que o objeto esteja ligado, enquanto queda, à emergência, à estruturação do sujeito enquanto divisão”, e mais adiante ele diz que é o corte que traz como resultado a queda do objeto e o sujeito enquanto dividido (LACAN, 1965-66, p. 69).(figura 8)

Figura 8 – corte no cross cap

Lacan (1965-66) ainda diz que este corte “introduz uma mudança estrutural (p. 72), e que este sujeito produzido, se apresenta “necessariamente dividido na própria estrutura” (p 75). Fazendo um alinhavo com o que a Cruglack (2001) nos traz, e partir do seminário da identificação, arrisco dizer que este corte se refere à intromissão da linguagem que separa sujeito e objeto de desejo, fundando o movimento da demanda e do desejo, que inaugura este traçado.

O sujeito dividido, para sempre apartado de seu objeto de desejo, busca, a partir daí, dar sentido ao enigma de sua própria existência. Este processo constitui o que Lacan chama de Fantasma. Retomando o início de meu trabalho, eu disse que, a partir deste corte inaugural, o sujeito passa a ter que responder ao que entende como demanda do Outro, e encontra-se com esse desarranjo entre desejo e objeto.

Eu situei acima que a introdução da topologia pelo Lacan foi para tentar formalizar algo sobre o Real, que é o que acho que aparece para mim na clínica e estou tentando dar contorno na teoria. Souza (2008, p. 54) nos lembra que a roupagem fantasmática que o sujeito veste frente ao próprio desamparo diante da não resposta do Outro diante de sua pergunta “O que queres?” implica também no Real, que é o de se fazer objeto de gozo do Outro. “O sujeito faz-se um objeto que ele crê que possa satisfazer ao Outro, naquilo que lhe falta”.

Para finalizar, irei articular com uma situação prática, baseada no filme “Blonde”, de Andrew Dominick (2022), uma ficção baseada na vida de Marilyn Monroe, personagem de Norma Jeane Mortenson. A atriz foi um dos maiores símbolos sexuais do século 20, e Norma pagou um preço por isso. NO filme fica evidente o quanto Norma Jeane tentou lutar a vida inteira para manter vivo algo de si, sem que Marilyn Monroe se sobrepusesse a ela.

Sem sucesso, Marilyn é claramente preferida à Norma, que aparece sempre desajustada, insegura e carente. Marilyn encarna o estereótipo da estrela hollywodiana, desejada e vazia, capaz de encarnar o fantasma masculino. Na Psicanálise (LACAN, 1972-73), a posição feminina implica em se colocar como o objeto causa do desejo, que se relaciona com o homem, a partir do fantasma dele. É por que a mulher não tem o falo que ela pode fazer-se de semblante que o é. Ao posicionar-se como o falo que falta ao outro, a mulher cria isto que a faz objeto, ou seja, no jogo erótico ela pode ser o falo para o outro. (LACAN, 1966-67).

O que salva a mulher de reduzir-se a puro objeto, e retomar sua posição de sujeito na relação amorosa é o amor. Quando uma mulher pede que o homem lhe dê provas que é amada por ele, ela pede que ele lhe assegure de que é o sujeito desse semblante de falo. (SOLER, 2005). Isso a singulariza.

Nem sempre isso acontece, no entanto, como no caso de Norma. Para todos os efeitos, Norma, indesejada e nunca amada, coloca em seu lugar uma criação, Marilyn, uma invenção midiática, desejada por todos.

Foi o amor, direcionado e singularizado, que Norma não obteve, e foi isso que lhe tirou a vida. Reduzida à puro objeto, não é possível aceder enquanto sujeito. No filme fica evidente sua busca pelo amor do pai, e ao não o encontrar, repete este desprezo de todos os homens que encontra pelo caminho. Sendo reiteradamente, reduzida a objeto de desejo e gozo masculino.

Norma cresceu sem saber quem era o seu pai, e sua mãe, Gladys, com quem cresceu, até os dois anos de idade, sofria com bipolaridade, e protagoniza diversas cenas de violência com ela. A partir disso, passa a viver em orfanatos e casas de família, mas nunca foi adotada de fato. A escolha que fez para sair disso foi uma tentativa pela via amorosa, no casamento, porem, como já foi falado, todos acabam protagonizando cenas abusivas, onde ela sempre era colocada como objeto de desejo, fantasia e gozo dos homens. Reduzida a puro objeto do Outro.

Para Norma, o frenesi que Marilyn causava, o amor de multidões, não lhe satisfazia, ela passa a vida toda em busca de um único olhar amoroso: o de seu pai. Existem relatos tambem de que ela apresentava crises de angústia intensas, e para se acalmar, olhava sua imagem nua no espelho. Criança rejeitada pelo pai, que nem chegou a conhece-la, pela mãe, que a culpa pelo desaparecimento do homem que amava, e acaba tornando uma obcessão.

 Marilyn cresce uma mulher extremamente insegura, que busca, o tempo todo, o olhar de aprovação do outro. Ela vai até as ultimas consequencias da humilhação e abusos para conseguir este olhar. Em todos os seus amantes a cena se repete, a busca de um pai que a ame, a cuide e a proteja. Reduz-se a puro objeto fetiche, objeto a ser olhado.

Norma, não à toa se angustia ao se ver, de Marilyn, precisando afirmar o tempo todo para si mesma, que aquela ali não é ela: objeto passível de ser devorado, denotando seu apagamento sujetivo, reduzido a objeto de consumo do Outro.

Conforme já dissemos anteriormente, (Lacan, 1963-63), para existir, o humano precisa ter sua existência reconhecida por outro humano. Na medida em que o Outro falta, e não sabe o que lhe falta, o sujeito é implicado, a partir de sua própria falta, a ocupar o lugar de objeto que supostamente completaria ao Outro, e consequentemente a ele mesmo.

A angústia surge quando o sujeito se vê na iminência de ver-se como objeto que completa o Outro. Para Lacan, a falta da falta implica no não relançamento do desejo do sujeito, que fica aprisionado à demanda do Outro. Nesta situação a angústia refere-se a não sabermos que objeto somos diante do desejo do Outro, correndo o risco de sermos um objeto apetecente aos olhos dele, podendo então sermos devorados.

Ao escrever o trabalho deste ano eu não tinha muita clareza acerca do que iria tratar, em especial pela dificuldade ética que vejo em trazer casos clínicos numa transmissão pela internet. A longo dele fui reconhecendo meu desejo de testemunhar o meu percurso nestes dez anos, junto à ALPL. Em meio a tudo que vem acontecendo em torno da Psicanálise, penso que senti a necessidade de retomar eu também, os primórdios, as marcas recebidas do Outro e as respostas que fui construindo, a cada encontro ou desencontro com as leituras e as discussões e transmissões de cada colega.  

Pude re-conhecer e reafirmar a importância deste espaço de trocas – ao longo deste período a Zeila vinha pedindo para dizermos acerca do porquê pertencer a uma instituição. Acho que mais do que garantir um selo de pertencimento, a instituição de um espaço onde posso ter essas trocas tem sido e é essencial para a manutenção da sustentação do meu lugar na clínica e no trabalho com a Psicanálise. 



REFERÊNCIAS

Catão, I. E Vivès,J. Sobre a escolha do sujeito autista: voz e autismo. Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 36 | p. 83–92 | Dezembro/2011. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-34372011000300007.

Catão, Inês. A Linguagem como mistério não revelado: voz e identificação nos autismos. In: JERUSALINSKY, A. (org.) Dossiê autismo. São Paulo: Instituto Lalangue, 2015. p. 64 – 75.

Cruglack, Clara. Clínica da Identificação. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2001.

Lacan seminário 13 (1965-66). O Seminário, livro 13. O Objeto da Psicanálise. São  Paulo: Fórum do Campo Lacaniano de SP, 2018.

Eny Lima Iglesias. Aspectos topológicos do grafo do desejo. Cogito v.1  Salvador  1996.

Freud,S. Totem e Tabu (1913-14). In: FREUD,S. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. v.13. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1996.

Freud,S . A identificação – Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921). In: FREUD,S. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. v.18. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1996.

Lacan, J. (1961-1962) O Seminário, Livro 9: A identificação. Recife, Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2003.

Lacan, J. (1962-63).O seminário, livro 10: A Angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

Lacan seminário 13 (1965-66). O Seminário, livro 13. O Objeto da Psicanálise. São  Paulo: Fórum do Campo Lacaniano de SP, 2018.

Lacan, J. O seminário, livro 24: l’insu que serait de l’une bévue s’aile à mourre (1976-1977). Espaço Moebius Psicanálise (tradução).

Soler C., A Querela   dos Diagnósticos. São Paulo: Blucher, 2020.

Souza, A. Há um Buraco na Estrutura. In: Souza, A. Os Discursos na Psicanálise. Rio de Janeiro: Cia de Freud, 2008. p. 51-63.

Tsyler, J. (trad. Fonseca, P. L).O Fantasma na Clínica Psicanalítica. Recife: Association lacanienne internationale. 2014.

 Víctora, L. G. Topologia e Clínica Psicanalítica. 2 ed. Porto Alegre: Redes Editora, 2016. 

 Víctora, Ligia Gomes. Topologia e tempo na quarentena – a banda de Möbius aplicada ao confinamento.Correio da APPOA, ed. 307. Disponível em: https://appoa.org.br/correio/edicao/307/8203topologia_e_tempo_na_quarentena__a_banda_de_mobius_aplicada_ao_confinamento/934



[1]Ela pode ser aplicada a uma banda de moebius, mas não o é (por outro lado, ao se cortar a banda de moebius pelo meio se chega a esta figura). Ouvi dizer que Lacan persegue esse intuito, mas ainda não o alcancei se ele atingiu seu objetivo.

[2]Ainda, ela relacionada a dinâmica deste processo, a depender de como se realiza, com a apresentação da neurose e da psicose e do fenômeno clínico da psicossomática. Literalmente ela diz: “a possibilidade que o sujeito disponha ou não das marcas constituintes para fazer frente à irrupção do Real está condicionada pelo modo como se conduziu o processo de identificação” (p. 15).

 

[3] Posteriormente, em RSI (1975) , Lacan ira relacionar esta primeira identificação ao Nome do Pai – mas ainda não cheguei lá.

[4] Nas palavras de Lacan (1965-55, p. 45) “Se não houvesse seres falantes, talvez houvesse cavidades no mundo, poças, depressões, coisas que retêm. Não haveria vasos”.

[5] “...a repetição deste círculo que não se fecha e (...) para se fechar, ele deve obrigatoriamente passar pelo circuito da outra espécie (d) (...) simbolizar o fato de que, para nós, o que a demanda está a suportar  - (...) a saber, a dimensão do desejo – ela só poderia suportá-lo enquanto tal a repetir-se” (Lacan, 1965-66, p. 316)

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