Conteúdos

Textos Jornadas ALPL

O SUJEITO E/É O OBJETO (?): A CLÍNICA PSICANALÍTICA NA ATUALIDADE

por Mônica Fujimura Leite

Quando somos convocados a dar o título para o trabalho que iremos apresentar na Jornada, eu não faço ideia do caminho que percorrerei. Então, o título vem antes do texto, depois é que vou atrás de escrever sobre ele. Lógica completamente inversa à que usava nas antigas dissertações do colégio, onde o título vinha por último. 

Mas, como a aposta é a de que o inconsciente possui uma lógica, e que o sentido vem aprés cup, deixei-me levar pelos ecos do meu enunciado, enodando o que eu estudava e me questionava na época, com o que recortei depois, ao longo do ano de trabalho junto aos colegas da ALPL.

Começo pelo que restou do que apresentei no fórum do ano passado, onde discorri sobre os impasses com que venho me deparando na clínica, que me convocam a pensar a teoria e a me posicionar na transferência de forma nova, articulando com os discursos da atualidade, em especial o capitalista. O que ficou pra mim foi o empuxo ao acoplamento do sujeito com o objeto, por meio da oferta de objetos que supostamente preencheriam a falta estrutural, numa proposta de gozo pleno, e as consequências disso na subjetividade.

Em sequência fiz uma retomada do conceito de Fantasma, que trata justamente da não relação entre sujeito e objeto (e ao mesmo tempo, um encobrimento disso). Além disso, com Tsyler (2004), penso que ele funcione como dobradiça entre a singularidade do caso a caso e o discurso social.

O Fantasma surge quando, na relação do bebê com a mãe, esta aparece enquanto Outro da linguagem que não tem um significante que autentique e garanta a sequência de significantes (LACAN, 1958-59, p. 400). Essa experiência, ao mesmo tempo que funda $ (S barrado), faz aparecer o a, que é o que cai do sujeito, separando-se dele. O sujeito busca um reconhecimento de seu ser no Outro, porém não o encontra, e é frente a essa falta, que se dá, como defesa, a construção do Fantasma.  O sujeito sofre um fading e objeto a é o que passa a designá-lo, a partir deste momento.[1]

 

O fantasma marca o momento do fading do sujeito em que o sujeito não acha nada no Outro que lhe garanta .... que lhe permita situar-se e nomear-se no nível do discurso do Outro, isto é, como sujeito do inconsciente (...) a é o que intervém para suportar esse momento...em que o sujeito apaga-se...para se designar no nível do desejo (LACAN, 1958-59, p. 289 / 400)”.

Tsyler (2014, p. 31) coloca que a escolha do sujeito é a resposta que ele dá à pergunta “O que o Outro quer de mim?”, e é isso que vai determinar o seu fantasma.

Retornando à questão que dá título ao meu trabalho, um primeiro ponto a ser extraído é isso, de o sujeito ser objeto do Outro em sua constituição. Lembrei-me de que há muito tempo atrás ouvi o Aurélio Souza dizer que o sujeito é o objeto, o que desde então me intrigou.

Hoje, no avanço na teoria, entendo, a partir do seminário 17 – que balizou os nossos estudos do eixo desde o ano passado  – que a raiz do fantasma é a marca da identificação do sujeito enquanto objeto de gozo do Outro (objeto a - p. 170), no processo de alienação à linguagem. (Lacan diz que o ser é efeito de um discurso). Por outro lado, o fantasma possibilita um encobrimento disso, separando o narcisismo do objeto de gozo. O eu constituído no estádio do espelho faz invólucro ao objeto (LACAN, 1969-70)[2].

De acordo com Amigo (2005), um bebê incorpora a linguagem via pulsão. Esta liga o gozo à palavra na interpretação que a mãe faz do choro como fome, por ex, instaurando a demanda: do lado do bebê como um pedido, e do lado dela, na recuperação de narcisismo e gozo que ele lhe proporciona. Dentro disso, uma mãe pode posicionar o bebê de duas formas: do lado da significação fálica ou do gozo fálico.

A psicanalista sustenta que tem ainda que haver uma passagem da pulsão ao desejo. Isso é feito através do fantasma: por meio dele o sujeito ficciona (implica que ele não existe, mas se produz uma escrita acerca dele) um objeto para a pulsão, permitindo-a satisfazer-se dentro de uma legalidade. Esse enlace permite a recuperação de algum gozo, na escala invertida da lei dodesejo. Em sua ficção, o sujeito pode escrever que crê que o Outro lhe demanda, uma vez que lhe falta[3].

Lacan (1970) traz que um resto de gozo pode ser recuperado através dos objetos pulsionais (olhar, voz, seio e fezes). Rabinovich (2004) por sua vez, citando Lacan, diz que o modo como cada sujeito sofre em sua relação com o gozo, através do mais-de-gozar, é o seu sintoma.

Avançado mais um pouco na teoria, quando Lacan monta o nó borromeu, ele coloca o objeto a no centro do nó, na amarração dos três registros (R, S,I), e diz que essa é a estrutura do sujeito. (AMIGO, 2005). O objeto a, situado neste lugar, serviria de resposta do $ ao desejo do Outro (fantasma). A construção do Fantasma possibilita articular um ponto de basta nessa relação de objeto que se coloca frente ao Outro primordial, podendo então fazer a báscula entre as posições de sujeito e objeto.

Amigo (2005) nos lembra que, para que alguém possa responder “O que o Outro quer de mim”, deve sentir-se legitimado a formular esta questão. E, uma vez formulada, não é automático construir uma resposta. Para poder deduzir um desejo no campo do Outro, é preciso que o gozo do Outro não oprima o sujeito. É necessário uma fenda por onde aquele possa encontrar espaço e tempo para fazer esta leitura.

A criança é posta do lado da significação fálica quando uma mãe lhe transmite a própria falta: oferece-lhe um ritmo de presença-ausência, e outros objetos além do da necessidade (ex. leite), como o olhar, a voz, o acalanto do colo. A mãe, ao intrincar as pulsões na criança, possibilita um limite ao gozo, uma vez que uma pulsão limita a outra. 

A significação fálica possibilita a significação da castração. Só então o objeto a se coloca no centro da cadeia, permitindo ao sujeito dar-se um objeto, escolhido entre os oferecidos pelo Outro. Assim pode recuperar o gozo, parcialmente, balizado pela lei do desejo, no fantasma.

Amigo (2005) fala que uma criança é reduzida ao gozo fálico[4] da mãe quando esta utiliza o bebê para tamponar permanentemente sua falta fálica, aquela ficando no lugar de fetiche. (objeto de desejo, não de causa de desejo).

Vamos pensar no espaço e tempo necessários para essa dialética. A psicanalista aponta, a partir de Lacan, três movimentos (tempos lógicos) na construção do fantasma. O primeiro é a expulsão do Real, a partir da entrada na linguagem (o que chamei de gozo perdido anteriormente): primeira identificação (ao Pai Real[5], incorpora o Real do Outro Real) (a partir do que Lacan desenvolve em R, S, I). Neste primeiro movimento acontece a incorporação do vazio. O segundo é o bordeamento deste buraco, formando uma moldura no entorno dele: segunda identificação (ao traço unário do Outro, incorporação do Simbólico do Outro Real) (a partir de Lacan, seminário 24). E no terceiro o sujeito representa imaginariamente (ficciona?) o objeto no meio da moldura: terceira identificação (ao sintoma do Outro, incorporação do Imaginário do Outro Real) (Lacan, em seus últimos seminários). Rabinovich (2004) complementa que a pergunta sobre o desejo do Outro é o mecanismo fundamental desta terceira identificação.

Amigo (2005) nos traz que, durante os tempos de fundação da estrutura, pode acontecer de alguns desses movimentos fracassarem. Ela cita cada um destes fracassos, situando-os nos diferentes tempos identificação.

Irei me ater nas situações em que o sujeito tenha incorporado o Real do Outro Real e o Simbólico do Outro Real, mas não pôde realizar o terceiro movimento, ao que ela denomina “fracassos estáveis do fantasma”. Tomarei esta última ilustração para pensar nos casos que abordei no meu texto do fórum.

Amigo (2005) situa este fracasso quando uma criança é instalada do lado do gozo fálico por parte de mãe. Ela cita como exemplos atribuições não falicizantes dirigidas ao bebê, que não corroborariam para a constituição de um narcisismo. Seria o oposto da atribuição normativa de “sua majestade o bebê”, por exemplo.    

Nestes casos, o sujeito não consegue discriminar de seu “eu ideal” a porção de objeto, reduzindo-se por inteiro a essa condição (objetal). O fracasso do fantasma impossibilita a recuperação parcial do gozo dentro da legalidade desejante. Ele o faz ou pela abstinência ou pela compulsão, gozando “como um louco”, sem limites. Quando o sujeito tenta separar-se do objeto, ele mata o próprio corpo. “É um ato de dignificação ao preço da vida” (AMIGO, 2005, p. 264).

Trata-se da relação do sujeito com o Outro, passível de ocorrer em qualquer momento histórico, nenhuma novidade. Se a minha questão inicial é sobre a contemporaneidade, que recorte posso fazer do nosso tempo que favoreceria esse tipo de amarração?

Lacan diz que o que tira a criança de obturar a falta na mãe é o pai. ELe  denomina Nome-do-Pai o operador da Castração. É a inscrição da castração que coloca o gozo como interditado, porque impossível. Uma vez que situei o pai Real como fundante da operação constitutiva (presente estruturalmente pelo fato de sermos seres de linguagem – por falar nos separamos da coisa), onde entraria o Nome do Pai?

Amigo (2005) responde que Lacan (seminário 22 / 1969-70) traz que o Nome do pai é o traço que orienta o sujeito na perda de gozo (orienta na impossibilidade do gozo da coisa) e orienta o desejo. “Assim, a impossibilidade estará sancionada por uma proibição” (AMIGO, p. 250)[6].  A castração implica que o Nome do Pai tem que ser traduzido em termos do significante fálico, e o sujeito argumenta com ela (submete-se a uma função).

“A castração é a operação real introduzida pela incidência do significante, seja ele qual for, na relação do sexo.” Não há “causa do desejo que não seja produto desta operação, e que o fantasma domine toda a realidade do desejo, ou seja, a lei.” (LACAN, 1969-70, p. 135).

Vivemos uma época em que se crê poder prescindir do pai antes de servir-se dele (VEGH, 2001, P. 140 citando Lacan). Em nosso século questionamos saberes estabelecidos, promovendo crítica aos fundamentos de práticas milenares tais quais a religião, a mitologia e as tradições. A Ciência dessacraliza o estabelecido, e permite duvidar, questionar e ultrapassar qualquer coisa.

Rabinovich (2004) vai na mesma direção, e firma que, na medida em que já não existe uma verdade consensual, que possa ser compartilhada por todos os sujeitos, as verdades particulares tomam a dianteira e o objeto a ocupa um lugar no campo do Outro, o lugar da verdade.

O psicanalista prossegue dizendo que como consequência, assistimos à queda dos ideais, atrelados a um avanço tecnológico vertiginoso e desenfreado, de práticas jamais imaginadas. (tais como a fertilidade, o início e o fim da vida, a escolha genética, a dispensa do sexo para a reprodução, o apagamento dos limites do corpo).

Por outro lado, pela necessidade de um mercado extenso, propõem-se políticas de universalização e massificação dos desejos (globalização), criando modelos de acordo com a necessidade do mercado, que dissolve as singularidades. Com este objetivo, criam-se produtos supostos preencher a “brecha de algo que é estrutural” (p. 151). Ele conclui dizendo que vivemos uma época de uma “espiral descendente da autoridade paterna” (2001, p. 140).

Neste sentido, Amigo (2005) nos traz que cada um faz uma dissolução do pai (citando Lacan com relação a Freud e à IPA) a seu tempo, a partir da obtenção de uma dívida de castração, que permite gerar sentido à própria existência. Não custa lembrar que Freud, em Totem em Tabu (1913-14) nos conta que existiu primeiro um pai mítico interditor, que foi morto, na tentativa de eliminar tal limite. Mas que incorreu em incorporação da interdição que ele encarnava, denotando que desde Freud a ultrapassagem do pai promove um balizamento ao gozo, possibilitando a instauração do desejo. Lacan (1969-70) reitera que a morte do pai institui a interdição desse gozo como primária (do incesto), e que a função dele é transmitir a castração. Esta, por sua vez, só pode ser enunciada após o assassinato do pai.

Anulado o limite que o pai situa, vale tudo, a qualquer preço. Vech (2001) chama de “ortopedia dos objetos” a produção de uma diversidade de gadgets para satisfazer a pulsão. Os objetos de consumo (Lacan os chama de “mais-de-gozar forjados”) representam uma possível recuperação de gozo, criando uma desejabilidade provocada por meio dos recursos propagandísticos e ideológicos, os quais homogeneizariam os supostos objetos de desejo, tornando-os análogos ao objeto a[7].Rabinovich (2004) lendo Lacan, diz que a Ciência proporciona uma série de possibilidades masturbatórias, auto suficientes, das quais o sujeito não pode desprender-se.

Ele então identifica-se com esses objetos capturados pelo mais-de-gozar, que oferece consistência ao eu (moi) (RABINOVICH, 2004). Um segundo ponto pra pensar o meu título: a identificação seria a objetos estéreis, pré fabricados, e não frutos de um desejo não anônimo, manufaturados de forma singularizada, em nome próprio.

Retomando a ausência de uma marca promovida pelo Nome – do – Pai, Vegh (2001) situa nos chamados “fenômenos de borda, sujeitos que “deslizam no tobogã do gozo” (p. 151), desenodado do desejo e do amor.

Traz exemplos de analisantes prostrados e estagnados, ou numa ação desenfreada, sem autoria, não constituindo-se enquanto atos. Além disso, uma proliferação de atuações, fenômenos psicossomáticos e as compulsões (drogadicções, anorexias, vícios). Amigo (2005) também encontra este fenômeno, dizendo que estes casos que se posicionam num discurso não psicótico, com pontos de amarração (pontos de basta), não delirantes. Mas que em seu corpo este basta não opera, seguem a lógica do “vale tudo”. Apresentam uma falta de limites para o gozo, pondo em risco sua saúde e sua vida. Ou ainda, fazem atos deliberados de tentativas de suicídio. “São pacientes que se costuma chamar de ‘atuadores’, que fazem de seu corpo uma espécie de letra portátil posta a circular pelo mundo nos diversos cenários dos acting out...” (AMIGO, 2005, p. 245).

Neste sentido, encontro em minha clínica reiteradas situações de apagamento subjetivo, jovens que têm acesso à “tudo” e não se implicam com nada (como a chamada geração “nem, nem”, começam uma coisa atrás da outra e não prosseguem – Ana Beatriz), sem tolerância à frustração, resiliência, iludidos e raivosos de que o emprego ou o parceiro ideal não existem (Francielle). Ou que querem todos os parceiros, ansiosos, deprimidos, medicalizados ou adictos. A vida sem um sentido (de propósito e direção - Danielle). Outros extremamente inibidos, incapazes de uma vida produtiva, de estabelecer relacionamentos (Karen, Camila), ou raivosos, intolerantes com a realidade, que não corresponde as suas idealizações. Também com muito medo de aparecer no mundo e ter que bancar o próprio desejo (Karina). Muito fragilizados e com dificuldades de abandonar a posição queixosa de que o mundo lhes deve, e sofrem, sofrem, sem se abrir para a questão de o que têm a ver com isso.

Na atualidade, o gozo (no sentido de satisfação ilimitada) é um ideal a ser alcançado, e todos os empecilhos a ele devem ser superados. Para Freud (1912-13) as adições podem ser entendidas como uma forma de busca de satisfação masturbatória, sem uma referência ao laço social. Lacan diz que expressam um rompimento com a ordem fálica (da linguagem), que instaura a falta no Outro, através da inscrição do Nome-do-Pai. Vegh (2001) chama estas situações de “dilacerações da trama simbólica que carece de recurso para delimitar o Real que irrompe.” (2001, p. 140).

Diante deste cenário, passo à segunda parte do meu título: a clínica psicanalítica na atualidade. Compartilho com Vegh (2001) que estes modos de responder aos impasses da “não relação sexual” são diferentes das clássicas Doras e Homens dos Ratos que chegavam ao consultório do Freud. Como podemos pensar teoricamente estes fenômenos, em especial a lida no trabalho clínico com eles?

 Uma Psicanálise vai na direção de possibilitar ao paciente deparar-se com sua posição de objeto e cair dela, descompletando o Outro, o que implica em admitir a falta como algo inerente à condição humana, e não algo que deva ser reparado. Assim, o objeto passa do estatuto de supostamente tamponar a falta (objeto de desejo), para o de ser movido por ele (objeto causa de desejo).

 

 “O analista, colocado no lugar da causa do desejo, está ali para captar o próprio sujeito como objeto (...) o sujeito como desejante do desejo do Outro, a partir da posição de causa desse desejo do Outro” (RABINOVICH, 2000, p. 84).

O psicanalista (2001) situa que a interpretação clássica pertence ao registro do Simbólico. Visa intervir no Sintoma, apostando no encadeamento da associação dos significantes, até o objeto a. A interpretação tem efeito de metáfora (porque o sintoma se assenta nesta condição. (LACAN,1957-58/1999).

Lacan (1957-58/1999) diz que o sintoma é fruto do embaraço sujeito diante do enigma do desejo do Outro. Ou seja, o sintoma é efeito do Fantasma. Ainda, que o sintoma é a resposta do sujeito frente aos restos da linguagem fazendo “coalescência” da realidade sexual com ela. É seu meio de gozo, na articulação do Real com o Simbólico. (LACAN, 1975).

Tsyler (2014) refere a clínica do sintoma ao Simbólico e ao Nome do Pai. E diz que, na atualidade, encontramos fenômenos de corpo e do agir, nas quais o pai não opera. Ele diz de uma necessidade de mudar o caráter das intervenções, uma vez que, diante das compulsões, adições e automutilações não cabe a equivocidade do significante. É uma clínica sem a marca fálica, um mundo líquido (fazendo referência a Bauman), sem limite.

Nestes casos o fantasma faz defecção (deserção), é outra coisa que opera. Rabinovich (2004) complementa, dizendo que estes casos não se posicionam do lado sintoma, mas do auto-erotismo.

Se o sintoma é efeito do Fantasma, como operar nos casos de fracasso em sua constituição? Se tais analisantes não contam com o argumento fálico (falo: significante pra falar da falta, se submeter a ele) para associar livremente e não podemos metaforizar seu discurso? Como operar então quando não é do sintoma que se trata?

Amigo (2005) coloca que nos casos de fracasso do Fantasma há uma falha na instauração da transferência (lembrando que esta é uma atualização da relação do sujeito com o Outro da história).Dentro disso, ela situa uma dificuldade de trabalhar com eles dentro da associação livre, que causa como efeito o paciente ir embora ou ficar mais “louco”.

Como podemos pensar isso? Lacan (1969-70) nos diz que o que funda a transferência é o analista supor um saber no inconsciente do analisando. A associação livre não é de fato livre, ela transita entre os significantes mestre (S1) do analisante, que produz um saber sobre eles (S2). Ora, se nestes casos não há essa marca fundante que possibilite ao sujeito se reconhecer a partir da construção ficcional que faz dela (lembremos que a escolha do objeto é da terceira identificação), é compreensível que ela não produza o efeito almejado.

Vegh (2001) propõe intervenções no registro do Imaginário, além do Simbólico. Resta, por fim, a questão: o que seriam intervenções no Imaginário?

Amigo (2005) refere que, nestes casos, a análise visa tornar a abrir a significação fálica, ajudando o sujeito a montar seus próprios modos de gozo. Neste sentido, penso no trabalho de costura, mais que de corte. A psicanalista propõe uma direção do trabalho que passa por um tempo de constituição do eu ideal (não no sentido do fortalecimento de um eu esférico, mas furado, enquanto invólucro do objeto – o falo aponta pra falta).

Re-construção da própria história, recolocando no lugar do agente o significante S1, em seu caráter de nome próprio, que é atribuído por um Outro, matriz para fazer seu próprio nome. Em transferência se realiza o luto deste injuriado, gozado no campo do Outro. (AMIGO, 2005). Onde faltam palavras, associações e uma interpretação sobre o que acontece consigo, Tsyler propõe a “narrativa imaginária”. Ele (2014) fala da reconstituição de algo moebiano, penso eu na alternância entre sujeito-objeto, saindo da fixidez.

Trabalhar no campo do Imaginário vai na direção de dar sentido, captar as palavras, na relação com o pequeno outro, mais do que escandir o discurso, equivocar os sentidos (este seria o trabalho com o Simbólico, relação ao Outro). Amigo (2005) conclui que nesses casos, o fim de análise parece ser o de constituir um fantasma, não do atravessá-lo.

Já Rabinovich (2004) entende que é possível prosseguir, que este é um trabalho prévio, até que o analisante passe a ocupar o lugar do sujeito dividido, quer dizer, do sujeito da associação livre. Inscrever a perda do objeto, para que ele passe de objeto de gozo, para de causa de desejo.

Conclusão

Penso que o discurso atual, pelo empuxo ao gozo, crie mais oportunidades de cristalização do sujeito neste lugar de objeto, identificado aos objetos a, oferecidos pela cultura. A construção em análise, de uma narrativa ficcional, possibilitaria um deslocamento no sentido do desejo ao, quiçá, encontrar em sua história, insígnias fálicas nas quais possa se revestir, ou construí-las, ortopedicamente, a partir de novas inscrições, em transferência. A Psicanálise insiste em lembrar que nem tudo é possível, fica um resto, que possibilita seguir desejando. (AMIGO, 2005).

Da mesma forma que no setting, no trabalho com a teoria da Psicanálise, há que se lembrar que Freud e Lacan foram homens de seu tempo, e em sua transmissão sempre frisaram o inacabamento de sua teoria. Que compete a cada analista pôr de si no exercício de sua prática, e isso implica nos atravessamentos de seu momento histórico.

“Dever-se-ia retornar hoje ao estudo e cuidado das letras como sinais discursivos da eficácia paterna, o parletre e os laços sociais que este funda, para poder tentar cada um a seu tempo, encontrar seu próprio estilo escritural e ir além do pai” (AMIGO, 2005, p. 227).

Penso que foi isso que fiz neste percurso: uma costura das letras de diversos autores, onde, cada um a seu modo, testemunha como tem pensado e trabalhado com os impasses clínicos da atualidade. Partindo dos rastros que Freud e Lacan deixaram, na época deles, escrever a meu modo, a partir dos atravessamentos do meu contexto sócio histórico e temporal, uma forma de também eu tomar lugar nesta cadeia discursiva.

 



REFERÊNCIAS

Amigo, S. Clínica dos Fracassos da Fantasia. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2005. 

Freud, S. (1913). Totem e tabu. In S. Freud. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol.13). Rio de Janeiro: Imago.

Freud, S. (1930). Mal Estar na civilização. In S. Freud. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol.21). Rio de Janeiro: Imago

Lacan, J. (1957-1958/1999). O seminário: livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1999. (Publicado originalmente em 1957-1958).Lacan, J. Seminário 17: O Avesso da Psicanálise (1969-70). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.

Lacan, Seminário 6 O Desejo e sua Interpretação. (1958-59). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Lacan, J. (1970). Radiofonia. In:______. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

Lacan, J. (1985). O Seminário, livro 20: mais, ainda (2S edição revista). Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Lições originalmente pronunciadas em 1972-1973).

Lacan, Conferência em Genebra sobre o Sintoma. (1975). Opção Lacaniana. São Paulo, no 23, pp. 6-16, dezembro de 1998. Disponível em: http://www.campopsicanalitico.com.br/media/1065/conferencia-em-genebra-sobre-o-sintoma.pdf.

Rabinovich, D.S. O Desejo do Psicanalista – liberdade e determinação em psicanálise. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2000. 173 p.

Rabinovich, D. Clínica das Pulsões: as impulsões. Rio de janeiro: Companhia de Freud, 2004.

Tsyler, J. O Fantasma na Clínica Psicanalítica. Recife: Ed. Da Association Lacanienne Internationale, 2014.

 Tsyler, J. “A Atualidade do O Fantasma na Psicanálise”. Tradução: Carla Novaes Letícia P. Fonsêca. Espaço Moebius Psicanálise. EPFCL.

Tsyler, J. (trad. Fonseca, P. L).O Fantasma na Clínica Psicanalítica. Recife: Association lacanienne internationale. 2014.

Vegh, I.  As Intervenções do Analista. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2001.



[1]Este objeto do qual o sujeito se separa fica para sempre perdido (e buscado), e é em torno dele que a pulsão faz contorno, assumindo várias formas. Freud localiza nos objetos das pulsões parciais (boca, ânus, falo e genitais) e Lacan (1963-64) os denomina de objetos pré-genitais, composto pelos objetos pulsionais – oral, anal, voz e olhar). De acordo com Amigo (1995), essas são as zonas erógenas, onde a pulsão circula em volta de um objeto que é vazio.

[2] Lacan (1969-70) diz que na intervenção de S1 (significante do campo do A), significante mestre, intervém sobre S2 (bateria de significantes), surge o $, sujeito dividido e uma perda, que ele denomina de objeto a.

[3] Lacan trabalha em duas polaridades: os determinantes significantes, de um lado, e a diacronia introduzida pelo objeto do gozo de outro, que, de maneira repetitiva, vai guiar esse material significante. (TSYLER, 2014, p. 176).

[4]Lacan situa o gozo fálico na intersecção entre o Simbólico e o Real.

[5] Lacan (1969, p. 131) diz que o pai Real é o agente da castração.

[6]Na psicose, por exemplo, não há realização do incesto, mas uma foraclusão desta marca).

[7] O objeto a capta o mais-de-gozar, através dos objetos da pulsão. A rigor, Lacan (1969-70) diz que esse é um gozo fracassado, uma vez que é impossível alcançá-lo. O objeto a opera a partir da abertura existente entre a perda de um gozo que nunca existiu e a promessa de sua recuperação (que na verdade nunca se realiza).

Veja também

Textos Jornadas ALPL

A MULHER, O FANTASMA, O LUGAR DO ANALISTA

Mônica Fujimura Leite

Textos Jornadas ALPL

SINTOMA DA CRIANÇA E INCONSCIENTE PARENTAL: IDENTIFICAÇÃO, AMOR, DESEJO E GOZO

Mônica Fujimura Leite

Textos Jornadas ALPL

ESTRUTURA: CLÍNICA E TOPOLOGIA

Mônica Fujimura Leite

Textos Jornadas ALPL

Por uma política da incompletude

Natália Delatim Ortiz

Textos Jornadas ALPL

O dizco-urso do psicanalista, hoje (O discurso capitalista e a subjetividade hoje)

Edinei Suzuki

Textos Jornadas ALPL

Os discursos, hoje, no avesso da psicanálise

Maria Gabriela Calegari

Textos Jornadas ALPL

O discurso do analista, hoje: e o que dizer das ''voltas a mais''?

Maria de Fátima Oliveira

Textos Jornadas ALPL

Devir pequeno analista

Zeila Facci Torezan

Participe de nossos próximos eventos

Ver próximos eventos