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Textos Jornadas ALPL

A ética do bem dizer e a produção do analista

por Fabiana Tkotz


Parto do meu trabalho do Fórum do ano passado, na tentativa de avançar um pouco do que trabalhamos em nosso eixo e também nos demais dispositivos da associação acerca da ética da psicanálise.

A escolha por esse tema teve relação com nosso eixo de trabalho do ano anterior, o discurso do psicanalista, hoje. Particularmente, entendo essa escolha como uma possibilidade de continuidade no que diz respeito à posição do analista. Posição essa que produz uma ética a partir da função analista e do operador desejo do analista, uma questão que, a meu ver, é central e de suma importância para o trabalho da psicanálise.

  

A interrogação lacaniana sobre a ética está profundamente enraizada na teoria freudiana, especialmente na noção de que o sujeito é estruturado pela linguagem e pelo inconsciente. Isso significa que a ética não pode ser pensada sem levar em conta a dinâmica do desejo e do gozo. Ao contrário da ética convencional, que tende a reprimir impulsos, a ética psicanalítica coloca em questão a possibilidade de que o sujeito não ceda de seu desejo, o que implica uma posição de compromisso radical com a verdade do desejo  e com a estrutura do inconsciente.

A partir dessa perspectiva, a ética psicanalítica se distingue de uma ética do bem ou da felicidade, pois reconhece que a busca pelo desejo pode entrar em conflito com o bem-estar e com os valores socialmente propagados ou aceitos. Assim, a questão da ética na psicanálise nos conduz a uma reflexão fundamental sobre a responsabilidade do sujeito em relação ao seu desejo e aos limites impostos pelo simbólico. Ao contrário de seguir um código de conduta moral e universal, Lacan convida a um enfrentamento da verdade do desejo, portanto inconsciente, com todas as suas implicações e paradoxos. É nessa dimensão que a ética psicanalítica se define como uma interrogação constante sobre a posição do sujeito diante do real.

No Seminário 7, Lacan introduz o conceito de gozo como um elemento fundamental para a compreensão da ética psicanalítica. O gozo, diferentemente do prazer, não se restringe ao princípio do prazer freudiano, que busca evitar o desprazer e manter um equilíbrio homeostático. Ao invés disso, o gozo se caracteriza por um excesso, uma satisfação para além do prazer e muitas vezes associada ao sofrimento. A experiência do gozo está ligada à estrutura simbólica que regula o desejo humano. O sujeito não encontra uma satisfação plena, já que o desejo está sempre marcado pela falta. No entanto, a busca pelo gozo persiste, levando o sujeito a desafiar os limites impostos pela lei e pelo simbólico.

Outro aspecto essencial da discussão lacaniana sobre o gozo é sua relação com o supereu. Enquanto Freud via o supereu como uma instância repressiva que impunha proibições, Lacan enfatiza seu aspecto paradoxal: o supereu não apenas interdita, mas também ordena o gozo. Esse desdobramento do gozo pode levar o sujeito a experiências de sofrimento e adoecimento, demonstrando como o gozo está implicado na dinâmica do desejo e da culpa. A partir dessa perspectiva, Lacan reformula então a questão da ética de que não se trata de buscar um bem supremo ou obedecer a um conjunto de normas morais, mas de reconhecer a posição do sujeito em relação ao seu próprio gozo, ou seja,  enfrentar essa relação sem submeter-se totalmente ao supereu ou à ilusão de uma satisfação plena. Dessa maneira, a ética psicanalítica se diferencia das abordagens tradicionais, colocando o desejo e o gozo no centro da reflexão sobre a subjetividade humana.

No seminário X, que foi algum tempo atrás outro eixo de trabalho da ALPL, Lacan introduz o conceito do objeto a como elemento central para a compreensão do desejo. Diferente da ideia de um objeto que pode ser plenamente alcançado e satisfazer o sujeito, o objeto a é aquilo que causa o desejo, mas que permanece inalcançável. O objeto a, uma invenção de Lacan, refere-se a um conceito que trata de um vazio estrutural, um buraco, uma falta que impulsiona o sujeito a continuar buscando satisfazer seu desejo, contornando esse buraco, sem jamais se completar. O sujeito, ao entrar no campo da linguagem e do simbólico, perde algo fundamental, um gozo pleno que jamais poderá ser recuperado, posto que este nunca existiu, tratando-se apenas de uma construção do sujeito. Essa condição é o que funda o desejo e dá origem ao objeto a, que funciona como causa desse movimento incessante.

Na ética psicanalítica, o objeto a desempenha um papel crucial, pois é aquilo que mantém o desejo vivo e em movimento, sem jamais permitir uma  obturação ou a satisfação  plena ou definitiva, sustentando assim, a falta como parte constitutiva da existência do sujeito. Trata-se de sustentar o mal-estar, a falta, o fundamental da estrutura que nos concerne. Portanto, o conceito do objeto a como causa do desejo põe em cena a questão ética fundamental da psicanálise.

O que está em jogo não é um caminho seguro para o bem-estar, mas o compromisso com o enfrentamento da verdade do desejo e suas consequências. A psicanálise abre assim, um campo de interrogação sobre a condição humana, onde cada sujeito deve encontrar ou inventar sua própria resposta ao desejo e a produzir um estilo  que responda à singularidade de cada um. 

No Seminário XXI “Os não tolos vagueiam”, que trabalhei no último cartel com os colegas da ALPL, Lacan também aborda a questão da ética propondo alguns avanços em relação ao Seminário VII “A Ética da psicanálise”. Nesse momento de trabalho ele desloca seu eixo central do desejo para a estrutura dos discursos, porém sem abandonar a ideia anterior e sim no sentido de ampliá-la. Nesse momento ele interroga novamente a posição do sujeito no laço social e sobretudo a posição do analista, a partir da formalização dos discursos. A ética, aqui, já não é mais somente lida em relação ao desejo, mas como consequência da estrutura que sustenta um discurso.

A partir dessa perspectiva, o título do seminário, Os não tolos vagueiam, ganha um peso conceitual. O “não-tolo” é aquele que imagina escapar ao jogo do discurso, que acredita não estar submetido à sua estrutura. Contudo, é justamente essa recusa que conduz à errância. A ética, então, não consiste em desmascarar o discurso ou colocar-se fora dele, mas em assumir a posição que sua estrutura exige. Pretender não ser enganado pela linguagem é ignorar que o sujeito é efeito dela.

Essa formulação tem uma relação direta com a ética da psicanálise. Diferentemente de uma ética moral ou adaptativa, como já dissemos bastante aqui ao longo dos trabalhos, a ética analítica consiste em sustentar o lugar específico que o discurso analítico inaugura. Isso implica não substituir o discurso analítico por outro, seja o do mestre, do universitário ou da histérica, a ética da psicanálise exige que o analista sustente a função que lhe cabe, posição que não é de saber pleno, mas ao contrário, uma posição de sustentação da falta e de causa do desejo.

Lacan radicaliza essa dimensão ao afirmar que “quem não é apaixonado por seu inconsciente erra”. Erra, não no sentido do erro ou de um certo e errado, mas no sentido de uma errância, do vagar. Botar fé no inconsciente não significa tampouco exaltá-lo, mas reconhecer-se como efeito de um saber que não se domina, de consentir ao fato de que o sujeito é estruturado por um saber que o ultrapassa. Recusar tal dimensão é imaginar-se soberano frente ao real, e portanto cair na errância. A ética da psicanálise, nesse ponto, implica uma relação específica com o saber inconsciente e não negá-lo é a possibilidade de sustentar sua estrutura.

Essa posição marca uma diferença importante em relação ao Seminário VII. No Seminário XXI, embora o desejo permaneça como horizonte, o foco desloca-se para a estrutura dos discursos. A questão já não é apenas a relação do sujeito com seu desejo, mas sua inscrição na estrutura simbólica que o constitui. A ética passa, assim, da dimensão do confronto com a Coisa para a dimensão do reconhecimento da estrutura.

A ética implica então em assumir-se como sujeito do inconsciente. A psicanálise, nesse sentido, convida a uma tomada de posição diante da estrutura que nos determina. Sustentar essa posição sem garantias é o que  implica que de fato haja uma ética da psicanálise.

A ética do bem dizer em Lacan, diz respeito à posição do sujeito frente ao real que o determina e, sobretudo, à posição do analista enquanto efeito de uma  produção que não é somente teórica, mas estrutural. Trata-se de uma ética do discurso, fundada na estrutura do inconsciente e articulada à produção do analista como objeto.

O termo “bem dizer” indica que a interpretação não visa a verdade como adequação, mas o toque do real pelo significante. O bem dizer não é a elucidação totalizante, mas a pontuação que faz surgir o furo no saber. Trata-se de um dizer que não fecha o sentido, que não reconcilia o sujeito consigo mesmo, mas que circunscreve o ponto de gozo. Nesse sentido, o bem dizer é solidário à noção de que “a verdade tem estrutura de ficção”, pois o sujeito é definido como efeito do significante e dividido pela linguagem. O bem dizer é ético porque não recobre o real com sentido. Ele opera na borda do impossível, aquilo que Lacan designa como o real enquanto impossível de dizer completamente. Sendo assim, a ética do bem dizer é uma ética do real. Ela faz surgir o desejo em sua dimensão própria, permitindo assim ao sujeito assumir sua divisão e circunscrever o gozo.

Mas volto à questão da produção do analista. A resposta não é institucional ou pela via de uma formalização, mas estrutural. O analista ocupa o lugar de objeto a, causa do desejo. Ele não fala como mestre (S1), nem como saber (S2), mas sustenta-se como resto, como aquilo que encarna a falta no Outro. E essa produção é efeito de uma experiência que requer a travessia de sua própria fantasia e a destituição subjetiva que não se dão sem o processo de análise pessoal. O analista só pode operar eticamente se tiver atravessado sua própria captura imaginária e experimentado, na carne, a queda do sujeito suposto saber.

Assim,  entendo que a ética do bem dizer e a produção do analista são dois aspectos de uma mesma estrutura: a sustentação de um discurso que não recua diante do real. O analista é aquele que, tendo sido reduzido à função de objeto a em sua própria análise, pode sustentar um dizer que não vela o real, mas o bordeja. Penso ser nessa borda que se situa a ética da psicanálise.

Encerro meu texto com o fragmento da fala de um analisante e do que se produziu disso. “Ta tudo uma merda. Hoje eu tô um cu.” Digo: É, merda e cu parecem ter mesmo uma relação. Ele então se lembra de um desenho que fez muito tempo atrás e se coloca a falar dele. Diz que manteve esse desenho guardado por alguns anos sem ter coragem de expô-lo. Disse que sempre achou seu desenho uma merda, mas que muito tempo depois, passou a considerar como sua melhor produção artística em segredo. Descreve então que desenhou uma boca e o percurso dessas coisas que por esse buraco entravam e se deslocavam pelo corpo humano, passando pelos buracos, até chegar a um cu meio sem contorno. Ri e diz que relacionou isso com seu percurso de análise. “Não tem como passar de um buraco a outro saindo ileso, né?!.” Diz que tais coisas que entram e saem da boca precisam ser ouvidas, digeridas e elaboradas. “Ou bem viram merda ou buscam outra forma, mas sempre em direção a alguma saída que às vezes leva muito tempo para ganhar algum sentido meio sem sentido. Uma merda também nunca é igual a outra e o que se fala é sempre outra coisa quando se escuta.”. Ri novamente e diz que seu c-u do desenho e de sua fala nesse dia, talvez seja sua arte de contornar seus desenhos e dar enfim vida a  eles, ainda que seja uma merda, mas seu “contorno único”.

Achei de uma riqueza tamanha essa fala, um presente mesmo,  que me inspirou a escrever esse trabalho. Pude, a partir da clínica, transmitir algo da teoria que para mim, por minha vez, ganhou também um contorno único e me causou o desejo de continuar esse percurso. Contorno esse que se dá ao longo de um processo e produz, pela via do efeito, um analista. Um analista naquele instante, uma função analista sustentada pelo desejo e que me relança sempre a continuar com muita fé no trabalho da psicanálise e no inconsciente.   


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